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Antes de se estabelecer a influência do positivismo na História como área do conhecimento humano, vale destacar que muitos historiadores positivistas do século XIX foram buscar argumentos para os seus posicionamentos no escritor grego Tucídides (471-399 a. C.) Ao contrário de seu antecessor Heródoto que falava em praça pública e se preocupava em agradar as pessoas em seus relatos históricos, Tucídides não estava preocupado com o aplauso popular. Além disso, Tucídides estava interessado na precisão do conhecimento histórico. Não estava interessado em mostrar seus pontos de vista, mas sim em produzir uma obra histórica para todo o sempre com isenção de suas opiniões pessoais ou da opinião de outros. Em Tucídides “A busca da precisão ligava-se à visão judiciária da História, como se a pesquisa histórica fosse uma investigação das provas de um tribunal em busca da verdade […] Inseria-se, também, no empirismo empregado pela medicina hipocrática” (FUNARI & SILVA, 2008, p. 21). Esta postura historiográfica de Tucidides fez com que os positivistas no século XIX retomassem “essa busca de transcendência em Tucídides, a descrição acurada do efêmero, em seu sentido original […] Tucídides viria também por essa via a ser paradigmático para o moderno positivismo” (FUNARI & SILVA, 2008, p. 20).

O moderno positivismo também se valeu de alguns pensamentos de Aristóteles (384-322 a.C.). Embora não tenha sido um historiador, Aristóteles escreveu sobre quase tudo e em uma de suas obras (Poética), faz uma distinção entre o trabalho de um poeta e de um historiador. Para Aristóteles, a História deve focar aquilo que não se repete, o particular; ou seja, a História deve se limitar a narrar os acontecimentos do passado, não tendo a ambição de, a partir destes acontecimentos, vir a explicar o homem ou o mundo.

Aristóteles aponta como característica essencial da História sua preocupação com o efêmero, com o acontecimento que não se pode repetir e que, por isso mesmo, nada nos pode ensinar sobre a natureza humana ou mesmo do mundo. O particular, por definição, nada revela […] o positivismo virá retomar esses argumentos, ainda que para valorizar a descrição dos acontecimentos e a falta de ambição epistemológica da História (FUNARI & SILVA, 2008, p. 23).

Com o advento do cristianismo e sua base nos escritos histórico-religiosos do Antigo Testamento, o elemento sobrenatural seria novamente destacado nas narrativas históricas. Funari e Silva, citando Jacques Le Goff, dizem que o Cristianismo significou a introdução de modificações profundas em relação ao pensamento greco-romano anterior, pois apresenta uma visão escatológica da História e vê Deus como um soberano agindo de forma constante e oculta no desenrolar da História, que seria desta forma, o desenvolvimento dos desígnios divinos. A historiografia moderna, que começa a ser influenciada pelos escritores da Renascença (século XV), surge justamente como uma reação às concepções teológicas do mundo e da História. Buscando-se romper não apenas com o relato religioso, mas também com a História na forma de literatura, surge no século XIX um novo conceito de História conhecido como positivo, pois buscaria tal conhecimento positivo do passado.

Pós-Kantiano e comtiano, o século XIX possuiu um a priori: a metafísica é uma impossibilidade; fora dos fatos apreendidos pela sensação, nada se pode conhecer. As filosofias da história racionalistas e metafísicas perdem suas sustentações metafísicas e, sem elas, não significam mais nada. A partir de então, só se quis conhecer as relações de causa e efeito, expressas de forma matemática. É a isto que chamavam “conhecimento positivo”: “observar os fatos, constatar suas relações, servir-se delas para a ciência aplicada” (Lefebvre, 1971, p. 31). Este “espírito positivo”, antimetafísico, passa a predominar entre os historiadores, e inicia-se uma luta contra a influência da filosofia da história sobre a “ciência da história”. O método histórico tornou-se guia e modelo das outras ciências humanas. Os historiadores adquirem prestígio intelectual e social, pois tinham finalmente estruturado seu conhecimento sobre bases empíricas positivas (REIS, 1996, p. 5, 6).

Foi na Alemanha que nasceu então a chamada “história científica”, como também antes já havia nascido a filosofia da história, sendo que aquela se propôs a ser justamente o antídoto desta. Os representantes mais importantes da história cientifica alemã, dita positivista, foram Barthold Georg Niebuhr (1776-1831) e Leopold von Ranke (1795-1886). Eles “exercerão uma influência capital sobre a historiografia européia no século XIX” (REIS, 1996, p. 11). Quanto a Niebuhr pode-se dizer:

Suas palestras […] marcaram a nova erudição positivista: a partir da Filologia, estabelece-se a crítica textual como pedra angular do positivismo historiográfico. Essa crítica visava a saber se os documentos eram verdadeiros e fidedignos. Em busca da descrição factual precisa, inaugurava-se o estilo da historiografia positivista, árido, difícil, em tudo diverso da tradição literária da História inaugurada por Heródoto. Niebuhr usou a História de Roma do historiador romano Tito Lívio (59 a.C. – 17 d. C.) para desacreditá-la, tanto por ser literária como por trazer uma infinidade de historietas inventadas. O positivismo visava ao conhecimento objetivo do passado, não ao gozo de uma bela leitura e, menos ainda, a dar guarida à fantasia (FUNARI & SILVA, 2008, p. 30, 31).

Quanto a Ranke, pode-se dizer que concentrou seus esforços para escrever sobre os séculos XVI e XVII, tendo produzido uma obra vasta. Deu seguimento e aprofundou a nascente teoria positivista iniciada por Niebuhr, tendo sido o grande historiador acadêmico positivista considerado como o fundador da moderna disciplina histórica. O positivismo de Ranke marcou a disciplina histórica por vários anos. Os objetivos de seu positivismo historiográfico nascente eram compreender o passado, mais do que julgá-lo, utilizando-se da crítica erudita das fontes. Para Ranke a História não tinha a função de julgar o passado e nem mesmo trazer instrução para o presente visando que com isso se beneficiassem as gerações futuras. A História deveria tão somente mostrar o que propriamente aconteceu.

Ranke “baseava-se principalmente nos documentos diplomáticos para fazer a história do Estado e de suas relações exteriores, pois acreditava que as relações diplomáticas determinavam as iniciativas internas do Estado” (REIS, 1996, p. 11). O trabalho do historiador para Ranke seria o de “recuperar os eventos, suas interconexões e suas tendências através da documentação e fazer-lhe a narrativa”, sendo que “a história se limitaria a documentos escritos e oficiais de eventos políticos” (REIS, 1996, p. 12). Ranke argumentava que os fatos a serem narrados pelo historiador “eram os eventos políticos, administrativos, diplomáticos, religiosos, considerados o centro do processo histórico, dos quais todas as outras atividades eram derivadas” (REIS, 1996, p. 14).

Ranke, bem como a história científica alemã que ele representava, defendia ainda a inteira neutralidade do historiador em seu trabalho historiográfico, ou seja, não deveria haver nenhuma interdependência entre o historiador e o seu objeto de estudo que são os acontecimentos históricos do passado. O historiador deveria ser capaz de fugir de todo e qualquer tipo de condicionamento filosófico, religioso, cultural, social, etc.

A história científica, portanto, seria produzida por um sujeito que se neutraliza enquanto sujeito para fazer aparecer o seu objeto. Ele evitará a construção de hipóteses, procurará manter a neutralidade […] não julgará e não problematizará o real. Os fatos falam por si e o que pensa o historiador a seu respeito é irrelevante […] Passivo, o sujeito se deixa possuir pelo seu objeto, sem construí-lo ou selecioná-lo […] Para obter esse resultado, o historiador deve se manter isento, imparcial, emocionalmente frio e não se deixar condicionar pelo seu ambiente sócio-político-cultural. Acreditavam os ditos “positivistas”, parece, que isso era possível. Acreditavam que, se adotassem uma atitude de distanciamento de seu objeto, sem manter relações de interdependência, obteriam um conhecimento histórico objetivo, um reflexo fiel dos fatos do passado, puro de toda distorção subjetiva. O historiador, para eles, narra fatos realmente acontecidos e tal como eles se passaram (REIS, 1996, p. 13, 14).

Outra faceta do pensamento de Ranke e dos positivistas é que a história existe em si, objetivamente, sendo-nos oferecida por intermédio dos documentos. Ou seja, os fatos, por existirem objetivamente não poderiam e nem deveriam ser recortados e reconstituídos ou construídos. Os fatos devem ser colhidos em sua total integridade para que através deles se consiga chegar à verdade objetiva. Os fatos deverão surgir como são. O historiador, como sujeito, deve ser totalmente passivo no processo, deixando-se possuir pelo seu objeto de estudo, sem nem mesmo construí-lo ou selecioná-lo.

A história científica alemã ainda advogava que a tarefa do historiador não é outra senão reunir uma quantidade significativa de fatos históricos “que são ‘substâncias’ dadas através dos documentos ‘purificados’, restituídos à sua autenticidade externa e interna; os fatos, extraídos de documentos rigorosamente criticados, devem ser organizados em uma seqüência cronológica, na ordem de uma narrativa” (REIS, 1996, p. 13).

Enfim, para a história científica alemã, que teve como seu principal expoente Leopold von Ranke, o historiador jamais deveria introduzir em seu trabalho nenhum tipo de reflexão teórica. Esse tipo de procedimento seria completamente nocivo por introduzir em seu trabalho a especulação filosófica, ou seja, introduzir elementos subjetivistas. Recusa-se a crítica social como função do historiador. O objetivo deste deve ser somente e tão somente a objetividade, por acreditarem que a história como ciência poderia alcançar tal objetividade e atingir a verdade histórica objetiva. Por isso, a super valorização do método crítico com a finalidade de se alcançar a objetividade. O desejo dos positivistas e da história cientifica alemã era, em suma, fazer “ciência objetiva”.

Após a Alemanha, a França foi o país onde esta história erudita, positiva e objetiva se instalou. Monod, Lavisse e Seignobos, grandes mestres do final do século XIX, haviam estudado na Alemanha e neste período ensinavam a história cientifica alemã na França. Estes positivistas franceses vão adotar os mesmos princípios que Ranke defendeu, todavia traduzirão tais princípios para o espírito francês.

Na França, a história científica alemã conta com duas fontes principais de divulgação. Em primeiro lugar, conta com a Revue Historique, revista fundada em 1876 por Gabriel Monod. Tal publicação, pode-se dizer, foi a fundadora da história cientifica na França e se posicionava como neutra, imparcial, focada na ciência positiva e totalmente avessa às teorias políticas e filosóficas. Em segundo lugar, e como divulgador do método histórico positivista alemão na França, tivemos o manual de Langlois e Seignobos, Introduction aux études historiques, de 1898. O objetivo de tal publicação não era o de ser uma obra de filosofia da história. Propunha-se, nas palavras de seus autores, “a examinar as condições e os procedimentos e indicar o caráter e os limites do conhecimento histórico”. Levantava, ainda nas palavras de seus autores, as seguintes questões: “Como chegamos a saber do passado o que é possível e o que importa saber? O que é um documento? Como tratar os documentos com vistas à obra histórica? Que são os fatos históricos? E como agrupá-los para construir a obra histórica?” Tal manual serviu para definir a atitude ou o espírito que motivou a pesquisa histórica da época, ou seja, o “espírito positivo”, antimetafísico. Alguns traços se destacam como qualificadores do “espírito positivo” desse manual, os quais são: apego ao documento histórico, obsessão em separar o falso do verdadeiro, o receio de se enganar em relação às fontes, a dúvida metódica, a priorização do fato histórico. A recusa dos modelos literários e metafísicos também são elementos que eram levados em consideração no desejo de se constituir a história sob bases científicas, positivas.

Outro personagem importante no contexto do positivismo aplicado à História, foi Fustel de Coulanges (1830-1889). Ele tem sido considerado o primeiro entre os historiadores franceses a produzir uma obra histórica “científica” em sua plenitude. Para Coulanges, a história não era arte e sim “ciência pura”, e, portanto, ele só dava crédito ao que poderia ser demonstrado e devidamente documentado. Coulanges é um positivista, pois em sua visão, toda a especulação e todo tipo de intenção pragmática deveria ser excluída da história. Desde que venha a surgir das fontes históricas devidamente criticadas, a hipótese não deveria ser excluída, segundo o método positivo de Coulanges. Ele foi um crítico dos historiadores do romantismo que atribuíam o conhecimento histórico à intuição poética, que visavam construir um quadro imaginativo, intuitivo, poético e vivo. Fustel será o maior expoente da reação da história metódica contra esta história arte-intuição. Como fundamento desta reação está o posicionamento de que o historiador não deve visar a ambição e sim a segurança. Ele quer ver os fatos e não estabelecer a sua própria idéia dos fatos. Fustel de Coulanges argumentava que como todas as ciências, a história como ciência consiste em constatar os fatos. Consiste ainda em analisar e aproximar os fatos e em estabelecer relações. Para Fustel, o historiador mais qualificado é aquele que consegue se manter o mais próximo possível dos textos, que busca interpretá-los com a maior precisão possível e que só escreve e só raciocina segundo tais textos. Segundo Fustel, enfim, a verdade objetiva pode e deve ser alcançada pelo historiador. Basta que, ainda que olhado à distância, o passado seja vislumbrado com clareza, sem medo e sem pressa.

Bibliografia:

FUNARI, Pedro Paulo Abreu, SILVA, Glaydson José da. Teoria da história. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 2008.

REIS, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência. São Paulo: Editora Ática, 1996.

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