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Posts Tagged ‘grafites paredes romanas’

O texto abaixo é uma versão resumida do livro “A Vida Quotidiana na Roma Antiga” de Pedro Paulo Funari. Para a realização de tal resumo foram utilizadas praticamente as próprias palavras de Pedro Paulo Funari.

INTRODUÇÃO
Nossa civilização ocidental funda-se no mundo romano e o Brasil também deve muito àquela sociedade. O objetivo deste livro é mostrar o dia-a-dia do povo comum de Roma antiga. O estudo da República Romana (509-27 a.C.) – e, do Império (27 a.C.-410 d.C.) tem sido o estudo da sua classe dominante. Esta concentração acaba afastando o mundo antigo de nossa realidade.
E o povo romano, onde é que fica? Em geral, diz-se que era inculto, analfabeto, grosseiro e rústico. Como poderíamos chegar ao povo? Também os homens comuns nos deixaram seus testemunhos. Os muros nas cidades romanas estavam sempre repletos de inscrições.
A ocupação contínua dessas cidades dificultou a preservação dessas inscrições. Nos primeiros dois séculos do Principado, apenas na cidade de Roma deve ter-se escrito, ao menos, cem milhões de intervenções parietais diversas!
Sobrou-nos a produção popular de Pompéia, graças à erupção do Vesúvio. Possuímos cerca de dez mil inscrições parietais, ou grafites. Não se tratará, neste livro, do quotidiano dos romanos em geral, mas de um seu momento específico, no auge do Império Romano.

CAPÍTULO I – O POVO E SUA CULTURA

O que é Cultura?
Não há unanimidade quanto a uma definição.
Cultura é tudo que resulta do trabalho e da elaboração humanos. Cultura não é apanágio de classe. Todos os indivíduos são intelectuais, pois são difusores do saber e exercem um papel ativo na organização do mundo social.

As Expressões Populares e sua Originalidade
Por vezes se assimila cultura à cultura erudita, reduzindo a primeira à segunda, e estabelecendo a produção cultural dos grupos hegemônicos na sociedade como padrão a partir do qual se julga o grau de aculturação de indivíduos e grupos sociais.
Uma concepção mais sofisticada considera que a ideologia da classe dominante torna-se a ideologia dominante para a sociedade como um todo. Contudo, essa visão não dá conta dos conflitos entre os diversos grupos sociais.
As expressões populares não podem ser entendidas como reflexo, nem mesmo como algo maquiavelicamente predeterminado pelos grupos hegemônicos para preservar sua dominação de classe.
As formas de pensar o mundo das diversas camadas sociais diferem.
A cultura erudita assenta-se no respeito à regra estabilizadora e funda-se na repetição e no esforço do artista na formulação de sua obra. A individualidade do autor eleva-se ao máximo grau. A cultura popular, ao contrário, constitui-se “das imortais tradições da humorística do povo, hostil a todos os cânones e normas, oposta a todas as noções definitivas e petrificadas sobre o mundo: o que um homem não pode fazer, as comunidades o fazem” (Gabriel Garcia Márquez).
A cultura popular não deixa de ser caracterizada pelas contradições originadas no seio das camadas subalternas. Suas cosmovisões refletem a aceitação e a recusa das condições de exploração material e espiritual.
Não se trata, por outro lado, de inverter os juízos de valor sobre as culturas eruditas e populares, tomando estas como medidas daquelas. Seria tão despropositada a condenação de uma sinfonia de Beethoven como a de um samba-enredo. Deve reconhecer-se a especificidade de ambas as expressões simbólicas, as características particulares da sua fruição e de sua função na totalidade de uma determinada sociedade. A inter-relação contínua entre as culturas hegemônicas e subalternas impediria qualquer tentativa de absolutização valorativa. A assimilação de Beethoven por Zequinha de Abreu não se diferencia da apropriação de temas populares polacos por Chopin.

Povo e Elite em Roma
A partir do período helenístico (333-146 a.C.) desenvolveram-se sociedades escravistas. Principais características deste sistema escravista: a nível econômico, a produção de mercadorias, a criação e ampliação de um mercado mundial e o crescimento da circulação; a nível social, o aumento da diferenciação dos grupos no interior da sociedade; a nível sócio-político, a municipalização e urbanização; a nível cultural, a expansão hegemônica de línguas padrão – latim e grego – entre a população, a homogeneização e aculturação das elites dirigentes locais, a alfabetização e a produção cultural autônoma das massas.
As culturas dominantes constituíam-se a partir da construção de uma auto-imagem conservadora.
A cultura do ócio das classes altas leva a uma erudição que se considera herdeira e continuadora da tradição (mos), reprodutora de um passado clássico.
As cosmovisões populares – se os ricos viviam um passado sem presente, os pobres viviam o presente sem um passado. Essa consciência do gozo do momento permeava a vida cotidiana do homem do povo. Forçados a trabalhar para viver, escravos e pobres, homens e mulheres sentiam a significação da percepção e da fruição. Essa massa estava presente nos teatros, nos anfiteatros, nos bares e nos templos. Assistiam a tragédias, a recitais musicais e poéticos, a diversos gêneros de comédias, picantes e jocosas, assim como às lutas de gladiadores e entre homens e feras. Participavam ativamente de cultos de Baco, Ísis e Vênus. Compunham suas próprias canções, trovas, músicas, danças.
As inscrições parietais ou grafites demonstram a participação política das massas e suas preocupações com o dia-a-dia, além de permitir avaliar a criatividade popular.
Existe um predomínio dos temas amorosos. Trata-se do amor sensual, físico, diretamente ligado à satisfação dos desejos, sensível e vivo. A ternura e a paixão também permeavam o quotidiano popular.
O quotidiano popular abrangia livres e escravos, homens e mulheres, trabalhadores unidos por uma mesma língua, pelas mesmas formas de expressão simbólica, por uma mesma concepção de beleza.

CAPÍTULO II – A CIDADE ROMANA

Estudiosos de Pompéia viriam a reforçar a interpretação, segundo a qual a cidade romana era não apenas consumidora, transferindo recursos do campo para a cidade, como, essencialmente, dominada por uma elite citadina. Outros estudiosos têm questionado este modelo de uma cidade consumidora, conservadora e estável.
Casas de aristocratas locais e de colonos eram facilmente distinguíveis por suas pinturas parietais, havia teatros para oscos e para latinos e um novo lugar de confraternização da cidade como um todo.
Wallace-Hadrill propõe que a arqueologia confirme que as ideologias dominantes realmente conformavam a vida na cidade romana, pois a distribuição espacial de bares e prostíbulos demonstraria o interesse das autoridades citadinas em excluir esses estabelecimentos dos lugares públicos e oficiais.
Como poderíamos chegar a essa raia miúda que freqüentava bordéis, para investigarmos em que medida a sansão moral da elite afetava os usuários de bares, prostíbulos e espetáculos populares? Os grafites parietais, numerosíssimos, representam a expressão, não do legislador urbano, mas dos infames eles mesmos. As intervenções (inscrições) parietais em tabernas não deixam transparecer qualquer sinal de preocupação com a vergonha que deveria, segundo as prescrições das elites dominantes, caracterizar esses ambientes. Talvez fosse mais prudente aceitar que a elite conseguisse êxito em infamar a ralé. Havia a tentativa de imposição da categoria infamia, por parte da elite, como havia também um outro conjunto de preocupações, por parte do povo, que passava ao largo dos conceitos oficiais aceitos pela nata da sociedade.
Não somente as inscrições parietais demonstravam as diferenças entre as percepções dos diferentes estratos sociais pompeianos; outra evidência é a representação figurada. Os estilos de pintura parietal pompeiana constituem um exemplo único de erudição centenária.
Os spectacula representavam o lugar onde a civilização e o barbarismo se encontravam.
A arena não servia apenas como lugar e momento de integração da sociedade romana, separava o romano do não romano de múltiplas maneiras.
“A arena era o lugar onde a civilização confrontava a natureza, na forma de feras que representavam um perigo para a humanidade; e onde a justiça social confrontava a má ação, na forma de criminosos, ali executados; e onde o império romano confrontava seus inimigos, na pessoa dos cativos prisioneiros de guerra, mortos ou forçados a combaterem, entre si, até a morte” (Wiedemann).
Povos sem cidades eram bárbaros, associados ao deserto e à incultura.
Há um elemento comum às cidades romanas, o fórum, cuja presença assegurava um estatuto propriamente urbano a um assentamento, assim como, em grande medida a imposição de um quadriculado ao traçado urbano com um espaço central reservado para o fórum. A adoção deste modelo de cidade efetivou-se, em particular, nas províncias ocidentais. Por alguns séculos, o mundo romano viu surgirem e multiplicarem-se as cidades.
Mesmo nos rincões mais distantes do mundo romano encontramos vida urbana florescente.
A ênfase que se depositou no caráter militar, punitivo e cruento da arena, como definidor de uma identidade romana conformista e respeitosa da dura lei, masculina, talvez deixe pouco espaço para a diversidade de identidades romanas, pois nem mesmo a supremacia e exclusividade de mando patriarcal podem ser aceitas como absolutas e incontestes. Seria possível supor que havia uma única identidade romana, capaz de englobar homens e mulheres, ricos e pobres, livres e escravos, citadinos e agrestes? Diferentes concepções, às vezes contraditórias, conviviam, produzindo uma profusão de imagens da própria condição, individual e grupal. Era neste contexto que se podia ser judeu, de fala grega e cidadão romano ao mesmo tempo.
As cidades romanas serão melhores entendidas, quando procurarmos evitar modelos que tudo explicariam, de maneira definitiva. Parece conveniente aceitar uma visão pluralista, que admita que não apenas a cidade era elemento central para os romanos, como também era diferente, em diferentes lugares e épocas e para diversos grupos sociais.

CAPÍTULO III – A CIDADE ROMANA PRESERVADA: POMPÉIA

História da Cidade de Pompéia
Nos últimos 150 anos (antes da destruição) da cidade de Pompéia houve um crescente enriquecimento das elites citadinas e progressiva inserção na cultura romana, atingindo a aristocracia e a cultura popular. O osco cede passo ao latim. De início, Pompéia dividia-se em duas: um município, agrupando a população original, e uma colônia romana. Houve um processo de interpenetração das duas Pompéias.
Pompéia tornou-se um local privilegiado de lazer dos aristocratas romanos. Uma manifestação das mais populares em Pompéia: era a luta de gladiadores.

A Pompéia dos Anos Setenta: uma Sociedade de Consumo
Com seus 10 a 15 mil habitantes, Pompéia era uma cidadezinha provinciana enriquecida. Possuía agricultura desenvolvida, que alguns autores consideram capitalista devido à sua orientação para o mercado. No campo, predominavam fazendas escravistas voltadas para a produção de mercadorias, trigo, azeite e vinhos. A criação de gado e a floricultura também eram praticadas no campo. No interior do recinto urbano encontravam-se fábricas de cerâmica, construção civil, tinturarias, lavanderias, manufaturas têxteis e de confecções, de conservas de peixes e panificadoras. A urbanização ligava-se ao papel articulador do mercado numa economia baseada no consumo de massa.
Não se pode falar em equilíbrio social, harmonia de classes. “A vida da maioria dos cidadãos – dos escravos era muito pior! – era de um nível radicalmente mais modesto. Amontoados em habitações estreitas e pobremente mobiliadas, deviam trabalhar duro para ganhar seu pão. Um sistema eleitoral extremamente discriminador assegurava à aristocracia uma verdadeira ditadura” (Herman Hofmann).
A imagem que fazemos de Pompéia resume-se ao ócio com dignidade: “é interessante não fazer nada” (Plínio); “é agradável nada fazer” (Cícero).
Temos as casas da elite, em sua pujança e riqueza. Móveis caros, refinados, paredes decoradas com pinturas, tetos e pisos finamente elaborados; aposentos espaçosos, estátuas, termas privadas, arquitetura monumental: um estilo de vida “refinado”.
Essa cultura erudita tem sido tomada como critério para julgar a arte popular. Entretanto, deve-se reconhecer que as expressões simbólicas de massa fundam-se em padrões estéticos específicos.

Eleições e Propaganda
Temos existência de um espaço público que permitia a existência não apenas do sentido individual da opinião, como da impressão tornada coletiva.
Haveria, pois, um espaço público antigo subjacente à opinião pública. As paredes de Pompéia preservaram um grande número de epígrafes cuja existência só pode ser explicada pela vitalidade de um campo público. Dois tipos de inscrições compõem esse campo: cartazes eleitorais e anúncios de apresentações no anfiteatro. Os primeiros, feitos com tinta, em letras a serem vistas a distância, eram anúncios, os segundos eram intervenções individuais voltadas para o público.
Algumas considerações sobre a opinião pública, em uma cidade romana como Pompéia: “As inscrições eleitorais eram, provavelmente, expressões do caráter competitivo da elite local, que emergia de público nas eleições anuais e fazia-se visível por meio de nomes dos candidatos pintados por toda a cidade” (Mouritsen).
Os magistrados queriam fixar, na mente pública, a sua glória, fama. Cícero ressalta que deve haver uma harmonia entre os julgamentos de cultos e incultos. Cícero argumentava que, se buscássemos a opinião pública, descobriríamos que ao povo agradava, antes de tudo, a paz, concórdia e ócio.
Os cartazes de divulgação de espetáculos demonstram a preocupação, por parte dos patrocinadores destes eventos, de tornar pública a sua oferta de lutas de gladiadores e de caçadas. Note-se a menção ao patrocínio “sem despesa pública”, a revelar a valorização, por parte dos leitores do cartaz, do recurso aos próprios recursos privados, ainda que a excepcionalidade da expressão deixe entrever que não se tratava de costume generalizado.
Outras inscrições pintadas revelam uma atenção notável para com a opinião alheia, pública e anônima.

O 24 de agosto de 79 d.C. e o Soterramento de Pompéia
Pompéia encontra-se situada aos pés do Vesúvio. Em 24 de agosto de 79 d.C., após abalos sísmicos nos dias anteriores, o vulcão entrou em erupção. Até o meio-dia a cidade encontra-se já soterrada. Este frio relato não permite perceber a emoção sentida pelos que presenciaram a catástrofe. Temos o testemunho de Plínio, o moço.

A Redescoberta de Pompéia
Com o passar do tempo, o próprio local onde se situava a cidade foi esquecido. Apenas em 1763 identificou-se, por uma inscrição, como Pompéia. A moda do classicismo viria a impulsionar as pesquisas, em fins do século XVIII e início do XIX.
As escavações ainda prosseguem e trouxeram à luz a maior parte da cidade (cerca de 3/5).
Nesta Pompéia encontraremos um quotidiano romano surpreendente.

CAPÍTULO IV – O QUOTIDIANO ROMANO NAS PAREDES

A Instrução em Roma
O domínio da métrica representa uma forma de discurso que tem seu sentido dado pelo ambiente social apropriado: as classes altas. A poesia popular que prescinde da métrica e que se utiliza de outros recursos, como a aliteração ou a representação visual, apenas adquire sentido no campo discursivo das classes populares.
A instrução da elite é bem conhecida pelas referências na tradição literária pelo fato de que historiadores, literatos e educadores já se debruçaram sobre essas mesmas referências. Não se deve tomar a educação e a cultura eruditas como parâmetro para a instrução popular. Não se pode supor que o treinamento para o otium fosse semelhante àquele para o negotium. O bilingüismo da elite romana: ao que parece, esses docti, desde a mais tenra idade, eram versados no grego koiné, antes que na língua do povo, o latim, e se sentiam mais ligados emocionalmente ao grego do que ao latim.
Não se pode imaginar que a instrução (erudita e popular) tivesse os mesmos objetivos e os mesmos métodos.
A imensa maioria (das inscrições) compõe-se de inscrições não oficiais e, a partir destas, podemos tecer algumas considerações sobre a instrução das não elites.
Poucas são as evidências materiais diretas que nos possam referir a existência de escolas para as classes baixas. “No mundo romano a capacidade de ler, escrever e contar não dependia necessariamente de uma formação escolar: métodos alternativos de aprendizado são identificáveis ou imaginados” (Horsfall). Possuímos uma infinidade de exemplos de escritos que refletem um aprendizado que não sabemos, exatamente, como se deu. Deve-se notar que havia escribas que deviam freqüentar alguma escola que desse conta do domínio da língua latina e da sua ortografia.
Os grafites constituem a melhor evidência do grau de instrução das classes populares. Existia um grande número de pessoas que escreviam com estilete (existiam mais de dez mil inscrições das cidades vesuvianas). Teriam os autores destas intervenções freqüentado a escola primária? Não se pode saber, mas não cabe dúvida que, se passaram pelo ludus primi magistri, aprenderam bem pouco não apenas das regras ortográficas, como da norma culta latina. Os autores que estudaram essas inscrições chamam essa língua de “latim vulgar”, “latim popular”, “proto-românico ou neolatino”. Muitas dessas inscrições ecoam a cultura erudita, por exemplo, ao citarem autores eruditos ou ao escreverem poesia com métrica clássica. Mesmo inscrições simples comportam um jogo com o domínio da norma culta. Outros apresentam desvios quanto à norma culta.
Pode concluir-se que havia diversos níveis e gradações de instrução e que a educação não se restringia à elite. O domínio da norma culta não era generalizada entre os letrados. Provavelmente, os melhores scriptores, ou seja, aqueles que efetivamente escreviam, os escribas, eram escravos, assim como talvez os grandes professores. A elite fazia uso, regularmente, destes serviçais que, no entanto, dominavam a norma culta. As classes populares, os pobres, os escravos e libertos comuns não possuíam o treinamento dos escribas, nem a erudição e familiaridade com o grego que os senhores, mas nem por isso deixavam de dominar aspectos importantes do mundo da escrita. O aprendizado destes humildes não passava pelos mesmos trâmites, diferenciava-se da erudição escolar, mas não deixava de permitir que, por meio também da escrita, esses populares pudessem participar ativamente da vida social, toda ela dependente das letras. Ricos e pobres, livres e escravos viviam em sociedade graças à instructio, à reelaboração constante de conhecimentos.

As Paredes de Pompéia
As paredes de Pompéia testemunharam a ocupação pelos grafiteiros de todos os espaços disponíveis. As inscrições eram constantemente apagadas pelos dealbatores literalmente: “que tornam a parede branca”, que liberavam os muros… para novas inscrições! As intervenções nas paredes ou parietais, além de numerosíssimas, provinham de todos os grupos populares da cidade, de camponeses a artesãos, de gladiadores a lavadores.
A maior parte dos grafites é anônima. Seu caráter público confere às intervenções murais traços únicos no contexto da criação popular. Em primeiro lugar, quebram a hegemonia dos meios de comunicação social por parte das elites e impossibilitam qualquer tipo de censura ou limitação. O aristocrata Rufo teve o muro norte de sua casa grafitado por um hábil crítico. Este grafite permite observar o grau da oposição popular à elite local e o espaço de liberdade de que dispunha o povo comum graças às intervenções murais. Outra característica do grafite reside na inevitabilidade da leitura pública das mensagens. Uma declaração aberta exige uma resposta também pública. O protesto, ao explicitar-se sem barreiras, expõe todos aos julgamentos públicos.
Os temas dos grafites são os mais diversos. Os mais recorrentes referem-se às campanhas eleitorais; os poemas amorosos, jocosos, satíricos, irônicos são também muito freqüentes. Assinaturas, insultos, caricaturas e trocadilhos espalham-se por todas as paredes.

Como Escreviam os Romanos no Dia-a-Dia
As letras latinas que aprendemos na escola, chamadas maiúsculas ou capitais, restringiam-se às grandes inscrições oficiais: eram as letras da erudição, esculpidas na rocha ou batidas em metal. O povo comum utilizava-se da letra de mão.
As inscrições feitas com o estilete eram as mais populares na cidade. As paredes pompeianas conheciam, também, inscrições pintadas, executadas com pincéis.

Do que Gostavam os Romanos Comuns
A diferença entre o gosto popular e o gosto das elites torna-se muito clara no caso da pintura erudita e do desenho parietal. As paredes eruditas encontravam-se sempre repletas de pinturas, fornecendo à elite citadina a criação de uma ilusão, de um transporte no tempo e no espaço, que tendia a isolá-la da vida das classes populares. Este processo começava com os instrumentos – o pincel e a tinta – que, ao exigirem estudo, mão-de-obra especializada e grandes superfícies, impunham uma riqueza considerável. A multiplicação de aposentos fornecia espaço para variados ambientes, transformando seus freqüentadores em verdadeiros viajantes no interior da própria mansão. Salas, quartos, banhos e saunas, copas e cozinhas, encadeavam-se, interligados por varandas, pátios e jardins internos, fornecendo ao pintor o espaço necessário para exercitar sua arte.
O pintor, um executante pago, não passava de um artesão desprezado pela elite e cuja habilidade encontrava-se em ser capaz de expressar e seguir os modelos estabelecidos por aquela reduzida elite. Se a autoria manual era confiada a um homem do povo, a composição intelectual encontrava-se firmemente nas mãos da própria aristocracia.
Os temas abordados remetem todos às noções de estabilidade, imutabilidade, a uma distância, espacial ou temporal, que preserva essa sensação de tranqüila manutenção do status quo.
O povo, ao contrário, viva amontoado em cubículos exíguos e as famílias populares, na maior parte dos casos, não tinham acesso a banheiro e cozinha próprios. Isto explica o grande número de padarias, bares e banheiros públicos que supriam esses serviços essenciais à população e forneciam um quadro comunitário para a vida do povo.
O grafismo popular diferenciava-se pelo seu caráter coletivo: não se tratava de refletir um mundo distante, como no interior das mansões, mas de retratar, nas paredes externas, a vida concreta, as paixões populares em sua imediaticidade.
No grafismo popular não há uma dicotomia entre o autor intelectual e o executor da obra, como na pintura erudita. O artista constitui-se num verdadeiro poeta, pois planeja, executa e repropõe no imaginário coletivo sua própria percepção da sociedade. Seu instrumento é barato e de acesso universal, o estilete, e permite que todos, e qualquer um, possam exercitar sua capacidade poética e artística. Os temas refletem a ação, antes que a estabilidade, a mudança brusca e repentina, antes que a continuidade, a instabilidade do destino, antes que a segurança proveniente da riqueza.
A forma de expressão, próxima do latim falado, distanciava-se bastante do latim erudito.
Nada poderia representar melhor essa estética popular do que os desenhos que, nas paredes, retratam os jogos entre gladiadores e entre lutadores e feras. A luta entre um certo Venustus e um leão permite observar a desumanização do homem.
A significação social dos jogos de gladiadores torna-se evidente no grafite.
Passa-se da desumanização abjeta e quase completa dos gladiadores, para a personificação crescente dos flautistas, para chegar à caracterização humana acabada nos deuses. No nível representativo, corresponde a um grau crescente de liberdade dos gladiadores (escravos), flautistas (pobres) e deuses (inteiramente independentes).
Os gladiadores são representados antes como uma junção de armas do que como homens. Caracteriza-se a despossessão e coisificação derivadas do escravismo antigo.

CAPÍTULO V – O QUOTIDIANO DOS ROMANOS INSTRUÍDOS

Erudito e Popular
Para que possamos entender a distância que separava a língua e as expressões poéticas eruditas das populares:
1. A normatização e estabilização do idioma erudito implicam a caracterização de um período áureo da língua, cujos autores estabelecem os padrões de correção a serem seguidos. No caso de Pompéia, os autores de meados do século I a.C. constituíam-se nos modelos clássicos.
2. Na língua erudita (em Pompéia) predominavam tendências arcaizantes e helenizantes, enquanto a língua do povo refletia as transformações usuais decorrentes do seu próprio uso cotidiano. Enquanto o latim erudito das elites se baseava na utilização de palavras em desuso e em flexões não mais utilizadas, o latim popular desenvolvia-se na direção justamente das línguas neolatinas, como o português.
3. Papel exercido pelo ensino, na submissão, por parte do povo, ao latim erudito dos gramáticos. A escola, ao dirigir-se às massas, acaba por fazer entrar na linguagem popular modos de expressão eruditos que, mesclados com os elementos populares de origem, terminam por forjar uma nova língua popular.
4. Língua popular apresenta variações de cunho regional (regionalismos), profissional, segundo o ambiente e conforme o veículo (língua falada ou escrita). Padeiros, oleiros e vindimadores também possuíam particularidades na sua fala, assim como variava o modo de falar de uma festa para uma cerimônia religiosa, em casa ou no prostíbulo.

Difusão Popular de Autores Eruditos
Nas paredes de Pompéia encontraram-se trechos de diversos autores latinos, que deviam ser conhecidos nos meios populares. Os escritores encontrados atingem quase a dezena. O meio de difusão destas obras eruditas devia ser a “escola primária” que, sendo paga, estava longe de atingir toda a população. Enquanto a educação erudita restringia-se aos meninos, as meninas pobres tinham mais oportunidade de estudo do que as filhas da elite.

Poesias de Cunho Erudito
Temas amorosos revelam um lirismo semântico e estético bastante apurado.
A erudição constrói seu discurso a partir de uma certa imagem reducionista da cultura popular.
A contestação aos valores correntes na sociedade demonstra a que ponto a consciência popular poderia pôr em xeque os fundamentos mesmos da sociedade em que os grupos subalternos viviam.
A aparência do homem do dia-a-dia diferencia-se do look dos astros, as belezas da platéia não são as mesmas do palco, os homens de carne e osso não são criações estéticas de gregos. No poema de uma humilde mulher pobre, revela-se uma face pouco conhecida dessa cultura popular, sua capacidade de contraposição, de negação, dos valores sociais mais caros às elites.

CAPÍTULO VI – QUOTIDIANO DOS ROMANOS COMUNS

A Poesia Sonora
Os temas amorosos ou líricos encontram-se entre os mais recorrentes nas paredes pompeianas. As belas e agradáveis expressões poéticas não raramente se encontram disseminadas pelos muros da cidade. As reações ao amor e ao erotismo numa cidade como Pompéia variavam do apoio e participação entusiásticos até a censura formal.
A construção do poema (CIL IV, 8408) implicou uma escolha detalhada das palavras enquanto distribuição de sons no interior da frase.
Outro grafite permite observar como mensagem, forma de expressão e local de exposição encontram-se inextrincavelmente ligados.
A crítica institucional à administração possui uma abrangência genérica que permite questionar a própria noção de discurso.

Expressões Visuais
Uma especificidade do grafite, sua configuração numa parede, possibilita-lhe atingir níveis de expressividade icônica muito elevados. Exemplos pompeianos permitem avaliar como a estética popular pode adquirir autonomia criativa, sutileza e profundidade sem perder seu caráter propriamente de massa. Seus temas referem-se ao quotidiano dos pobres, às suas paixões, justamente àquilo que faz do povo um grupo social diferente das elites: remetem, portanto, à sua alma.
O amor, ainda uma vez, apresenta-se no centro das atenções do homem comum.
Grafite CIL IV 8329 – o primeiro objetivo do poeta consiste em dificultar a leitura e causar uma sensação de estranhamento no leitor. Reinicia-se a decodificação da mensagem em seu nível icônico. A frase representa uma imagem correspondente à mensagem. O poema possui ainda um aspecto fônico coerente com a mensagem. A frase, pelas múltiplas mediações, constitui uma verdadeira escultura verbal, tônica e cônica. Trata-se de um poema lírico, erótico, excitante, mas nunca pornográfico, chocante ou nojento. Embora sua mensagem seja explícita e direta, a hábil interposição de barreiras e a construção estética resultantes acabam por seduzir e atrair.
Não apenas o erótico povoava o imaginário popular. Um outro poema icônico (CIL IV 8031) constitui-se num verdadeiro pictograma que consegue tratar, em um só poema, de múltiplos aspectos da realidade popular pompeiana.
As várias diversões públicas, como os jogos gladiatórios, ou as peças de teatro, eram um presente (múnus), dos ricos aos pobres, um seu encargo (munus). Daí que o próprio espetáculo e o local da apresentação, o teatro, fossem chamados, também, múnus.
A referência ao anfiteatro e aos jogos gladiatórios é tanto mais significativa se pensarmos que a capacidade das suas arquibancadas era equivalente à população masculina adulta da cidade. Esta diversão de massa constituía-se numa verdadeira paixão popular, convertendo-se num elemento central na manutenção da ordem social. A convivência de ricos governantes, que pagavam os espetáculos, com os pobres governados, que se divertiam numa congregação social aparente com os outros estratos sociais, tornava este espaço de prazer em espaço de reforço dos laços sociais.
Vida política citadina em geral – As propagandas eleitorais espalhavam-se por todas as paredes da cidade, os políticos postulavam anualmente seus cargos e o faziam através de bem elaborados cartazes divulgadores.
Este poema constitui uma síntese das contradições da vida popular pompeiana, às vezes insubordinada, independente, mas subalterna e dominada estruturalmente.
Um poema de autoria de um jovem, Sepúmio, (CIL IV 1595) fornece-nos um bom exemplo de formas e conteúdos eruditos e populares numa mesma construção estética. Trata-se de uma charada. Uma assimetria entre a passividade do espectador do teatro e a atividade do torcedor das corridas de cavalos. O autor opõe a observação do palco no teatro à excitação, desejo e torcida pela vitória deste ou daquele. No primeiro caso, trata-se de observar o desenrolar da peça de teatro. No segundo, mais que observar o desenrolar da corrida, a torcida por um dos cavalos em disputa constitui a essência da participação.
O predomínio, no teatro pompeiano dos últimos tempos, de representações realistas, grandiloquentes e que, bem ao gosto popular, fugiam dos padrões eruditos clássicos, explica o papel do elemento emocionante e inesperado no desenrolar da peça. As repetições das obras clássicas eram preteridas em favor das histórias de aventura. O culto aos clássicos não encontrava consenso nem mesmo entre o público erudito. Ainda que houvesse críticas, por parte de setores da erudição, ao inesperado no teatro de fins do século 1 d.C., a alusão de Sepúmio, em seu poema, apenas pode referir-se à necessidade, por parte do espectador, de contar com desfechos inusuais. Trata-se da aguda percepção, por parte do autor, de uma característica essencial da sua época: o gosto pelo novo, a ojeriza da repetição inócua dos modelos clássicos.
A referência às corridas de cavalos deve ser entendida no contexto da paixão popular por esse esporte. O público organiza-se aqui em torcidas. O poema revela, assim, algo típico da mentalidade popular pompeiana, sua constante ânsia pela novidade, movimentação, mudança, em tão grande contraste com o imobilismo da elite em sua defesa do status quo. Ainda uma vez, a alma popular se sobressai, num simples poema escrito numa parede, transcendendo os limites estreitos de uma erudição esterilizante. E permite exprimir a imensa riqueza de possibilidades expressivas derivadas da junção da forma visual do grafite e sua mensagem propriamente verbal.
No grafite (CIL IV, 8468) o autor pode representar a própria cidade de Pompéia como uma rede de relações, retratando o vulcão Vesúvio, símbolo da cidade, e suas encostas. O autor pode captar toda a intensidade da dependência que Pompéia possuía em relação ao Vesúvio. Sua agricultura vinícola dependia do solo fértil proporcionado pelo solo vulcânico. Sua posição como estância de veraneio seria impensável sem o contraste entre sua costa, onde abundavam iates e portos, e a beleza, tão cara aos romanos, das encostas montanhosas. Não é à-toa que o vulcão aparece com tanta freqüência nas pinturas parietais da elite atraída pela paisagem por ele proporcionada. As encostas representam a articulação da vida pompeiana.

CONCLUSÃO: O QUOTIDIANO ROMANO E NÓS
Os romanos viviam um dia a dia que ainda pouco conhecemos. A vida diária romana mostra-nos um mundo desconhecido e que contradiz muito com o que se diz sobre os romanos. Eles não eram insensatos, brutos ou violentos, tinham sentimentos e valores, muitos dos quais estão conosco, de forma transformada. O conhecimento do mundo romano pode levar-nos a melhor refletirmos sobre nossa própria realidade, sobre as diferenças sociais e sobre os usos que se tem feito de Roma. A quem interessa a imagem de um mundo romano dominado por tiranos cruéis, os césares? A quem interessa que nosso olhar sobre Roma passe pela suposta aceitação da submissão, como se sempre houvesse dominadores e dominados?

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