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Posts Tagged ‘Sérgio Buarque de Holanda’

por Ronaldo Guedes Beserra

A hipótese do “homem cordial”, se não for a principal, certamente é uma das principais hipóteses do trabalho de Sérgio Buarque de Holanda em seu livro “Raízes do Brasil”. Holanda mostra como a família patriarcal no Brasil contribuiu para a formação do “homem cordial”, aquele individuo que não consegue separar o público do privado, que não consegue entender que a vida no Estado burocrático deve ser impessoal e não pessoal. Na verdade, Holanda afirma que o “homem cordial” é a contribuição do Brasil para a civilização.

Para desenvolver tal argumento, Holanda vai lançando os fundamentos de seu pensamento desde o início de seu livro. No primeiro capítulo, onde fala sobre nossas origens ibéricas, Holanda argumenta sobre a precariedade das idéias de solidariedade entre hispânicos e portugueses em função da cultura da personalidade ou do personalismo presente entre estes povos europeus. Holanda observa que a idéia de solidariedade entre os povos ibéricos só existe onde há vinculação de sentimentos, característica marcante do homem cordial.

Já no segundo capítulo, onde contrasta dialeticamente o trabalhador e o aventureiro, Holanda argumenta que o que faltou para o êxito do labor produtivo entre nós foi uma capacidade de livre associação entre os elementos empreendedores do país. Todavia, o que ocorreu de fato foram vínculos de pessoa a pessoa, compreensíveis em uma sociedade de origem personalista como a nossa. Mesmo não citando ainda a expressão “homem cordial” neste segundo capítulo, Holanda já lança as bases para dele falar mais à frente, quando mostra que a peculiaridade da vida brasileira foi a acentuação do afetivo, do passional, e também um bloqueio quanto a qualidades de ordenação, de disciplina, de racionalização, ou seja, o contrário do que se deve esperar de um Estado burocrático impessoal.

Se já havia lançado as bases para o homem cordial nos dois primeiros capítulos, é no terceiro capítulo, que Holanda torna ainda mais explícitos os fundamentos do homem cordial em nossa sociedade brasileira. Ao escrever sobre a nossa herança rural, Holanda mostra a força do modelo da família patriarcal no Brasil, força esta favorecida pelo fato de toda a estrutura de nossa sociedade colonial ter se desenvolvido fora dos meios urbanos, ou seja, no meio rural, com um forte predomínio deste modelo patriarcal de família. Essa influência se fez sentir nas relações políticas, onde os partidos políticos também se constituíam à semelhança de famílias patriarcais, onde os vínculos sentimentais, afetivos e biológicos estavam acima de interesses e idéias. Nestes domínios rurais que foram a base para o surgimento do “homem cordial”, a autoridade do proprietário de terras jamais era confrontada. Desta forma o quadro familiar tornou-se tão poderoso que sua influência, mesmo fora do ambiente familiar, perseguiu os indivíduos. Segundo Holanda, ainda argumentando no terceiro capitulo de seu livro, foi impossível, portanto, que tal organização familiar, deixasse de estabelecer fortes marcas em nossa sociedade, vida pública e outras atividades. Quando as cidades começaram a se desenvolver de forma mais efetiva, as pessoas que saíram das zonas rurais em direção à vida citadina já levaram consigo os valores recebidos no seio das famílias patriarcais, favorecendo assim a disseminação dos valores do homem cordial em nossa sociedade, inclusive no âmbito dos serviços públicos e nas relações entre governantes e governados. Os centros urbanos brasileiros nunca deixaram jamais deixaram de sentir a influência da ditadura dos domínios rurais.

Após discorrer sobre o semeador e o ladrilhador no capítulo quatro, Holanda chega então ao capítulo cinco, onde descreve com detalhes, segundo sua tese, o “homem cordial”. Para Holanda, o “homem cordial” – contribuição do Brasil para a civilização, que se desenvolveu a partir de características peculiares aos povos ibéricos e a partir de características comuns à formação de nossa sociedade colonial – tem certas marcas que o distinguem. Ele sente pavor em viver consigo mesmo; para ele, a parcela social, tende a ser o que mais importa. O “homem cordial” sente dificuldade de uma reverência prolongada ante um superior; até prestamos reverencia, desde que não seja suprimida a possibilidade de convívio mais familiar. A manifestação normal de respeito que outros povos demonstram, para nós é dissolvida em desejo de intimidade. Esse modo de ser reflete-se em nossa inclinação para emprego de diminutivos e para a tendência de omissão do nome de família prevalecendo nome individual. Tem também uma ética de fundo emotivo. Outro aspecto comum ao povo brasileiro, segundo SBH, legítimo representante do “homem cordial”, é o tratamento dos santos com uma intimidade quase desrespeitosa; o próprio Deus é um amigo familiar, doméstico e próximo. Nossa cordialidade se traduz ainda em horror às distâncias interpessoais até mesmo no campo espiritual. Para nós, o rigor do rito se afrouxa e se humaniza.

No capítulo seis, Novos Tempos, Holanda mostra como o “homem cordial” afetou nossas concepções políticas. O liberalismo democrático, por exemplo, só foi assimilado entre nós até onde permitiu tratarmos com familiaridade nossos governantes e até onde pode negar a autoridade confirmando nosso horror às hierarquias.

Já finalizando seu livro, em seu último capítulo intitulado “Nossa Revolução”, Holanda continua mostrando as influências do “homem cordial” em nossa vida política e social. Para tal, ele lembra como, entre nós, os próprios ideais da Revolução Francesa sofreram a interpretação que melhor pareceu acomodar-se aos velhos padrões patriarcais e coloniais. Holanda argumenta como a idéia de uma entidade imaterial e impessoal, pairando sobre os indivíduos e presidindo seus destinos, é dificilmente inteligível para nós, povos da América Latina. Para Holanda, em função de nossa noção de bondade natural, nosso “homem cordial” encontraria uma possibilidade de articulação entre seus sentimentos e as construções mais dogmáticas da democracia liberal nas idéias da Revolução Francesa. Todavia, com a simples cordialidade não se criam bons princípios. É necessário que o “homem cordial” se submeta a algum elemento normativo. Somente assim haverá progresso social.

É interessante, também, relacionar este conceito do “homem cordial” com outras leituras que temos feito. Vemos o princípio da cordialidade já no primeiro documento da literatura brasileira. Basta notar como Pero Vaz de Caminha já misturava o público com o privado. Depois de escrever um documento oficial ao soberano de Portugal, no fechamento da carta Caminha aproveita para pedir um favor pessoal ao Rei, ou seja, que este mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, seu genro.

Ainda nos escritos de Gilberto Freyre, em seu livro “Casa Grande e Senzala”, vemos as marcas do “homem cordial”. Especialmente quando ele fala como entre nós, os nomes próprios foram perdendo a solenidade, dissolvendo-se deliciosamente na boca dos escravos. Criamos também, em detrimento do modo português, um modo novo de colocar os pronomes, inteiramente característico do brasileiro. Um modo bom, doce, de pedido. Ainda vemos as marcas do “homem cordial” em G. Freyre quando ele fala de nossa religião doce, doméstica, de relações quase de família entre os santos e os homens. Um cristianismo doméstico, lírico e festivo, de santos compadres, de santas comadres dos homens, de Nossas Senhoras madrinhas dos meninos. Isso faz bem lembrar de Sérgio Buarque de Holanda quando ele fala que o “homem cordial” trata os santos com uma intimidade quase desrespeitosa e que não se conforma com o rigor do rito.

Concordo plenamente com SBH quando ele diz que o Estado não é uma ampliação do círculo familiar, que entre estes existe até mesmo uma oposição por pertencerem a ordens diferentes, que não entender isso gera crises que podem afetar a sociedade. Concordo também quando ele diz que a vida no Estado burocrático é caracterizada pela ordenação impessoal. Todavia, penso que, quando as características do homem cordial não ultrapassam os limites, invadindo assim a esfera pública do Estado burocrático, estas características não são de todo ruins. Pessoalmente entendo com muito positiva a inclinação do brasileiro para a vida em sociedade. Penso também que, mesmo entre um superior e um subalterno é possível uma relação mais pessoal sem que esta extrapole os limites no sentido de vantagens pessoais. Como religioso e cristão, também prefiro o rito mais frouxo e humanizado, a intimidade com a divindade. Não vejo nisso, necessariamente, perda de espiritualidade. Seja como for, este tema do “homem cordial” é algo que deve ser pensado pela sociedade brasileira para que os limites do público não sejam invadidos pelo privado e tenhamos assim uma sociedade mais justa, isenta e igualitária.

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O texto abaixo é uma versão resumida do livro “Raízes do Brasil” Sérgio Buarque de Holanda. Para a realização de tal resumo foram utilizadas quase que completamente as próprias palavras de Sérgio Buarque de Holanda.

Capítulo 1- Fronteiras da Europa
A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território é o fato dominante e mais rico em conseqüências nas origens da sociedade brasileira. Somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Todo o fruto do nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.
Caberia averiguar até onde temos podido representar aquelas formas de convívio, instituições e idéias de que somos herdeiros.
É significativa a circunstância de termos recebido a herança através de uma nação ibérica. A Espanha e Portugal são um dos territórios-ponte pelos quais a Europa se comunica com os outros mundos.
Foi a partir da época dos descobrimentos marítimos que os dois paises entraram mais decididamente no coro europeu. Esse ingresso tardio deveria repercutir intensamente em seus destinos, determinando muitos aspectos peculiares de sua história. Surgiu assim, um tipo de sociedade que se desenvolveria quase à margem das congêneres européias.
Ressalta-se uma característica bem peculiar à gente da península ibérica em relação às outras gentes da Europa. Nenhum desses vizinhos soube desenvolver essa cultura da personalidade da gente hispânica. Pela importância particular que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos semelhantes, devem os espanhóis e portugueses muito de sua origem nacional. O índice de valor de um homem infere-se da extensão em que não precise depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes.
Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente. As iniciativas, mesmo quando se quiseram construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens, não de os unir.
Erram profundamente aqueles que imaginam na volta a certa tradição, a única defesa possível contra nossa desordem. As épocas vivas nunca foram tradicionalistas por deliberação.
Portugueses e espanhóis parecem ter sentido a irracionalidade, a injustiça social de privilégios, sobretudo hereditários. O prestigio pessoal manteve-se continuamente nas épocas mais gloriosas da história das nações ibéricas.
Nunca chegou a ser rigorosa e impermeável a nobreza lusitana. Esta jamais logrou constituir uma aristocracia fechada; a generalização dos mesmos nomes a pessoas das mais diversas condições não é fato novo; explica-o a troca constante de indivíduos, de uns que se ilustram, de outros que voltam à massa popular donde haviam saído.
Havia homens da linhagem dos filhos d’algo em todas as profissões. A comida do povo não se distinguia muito da dos cavalheiros nobres; estavam em continuas relações de intimidade; os nobres lhes entregavam a criação dos filhos.
Porque não teve excessivas dificuldades a vencer, por lhe faltar apoio econômico, a burguesia mercantil não precisou adotar um novo modo de agir e pensar, ou instituir uma nova escala de valores. Procurou, antes de associar-se às antigas classes dirigentes, assimilar muitos dos seus princípios, guiar-se pela tradição. Os elementos aristocráticos não foram completamente alijados e as formas de vida herdadas da Idade Média conservaram, em parte, seu prestígio antigo.
A autêntica nobreza há de depender das suas forças e capacidades, pois mais vale a eminência própria do que a herdada. A abundância dos bens, os altos feitos e as altas virtudes, suprem a linhagem de sangue.
Nas nações ibéricas o princípio unificador foi sempre representado pelos governos que nos tempos modernos, encontrou uma das suas formas características nas ditaduras militares.
Jamais se naturalizou entre gente hispânica a moderna religião do trabalho. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. O ócio importa mais que o negócio; a atividade produtora é menos valiosa que a contemplação e o amor.
Também se compreende que a carência dessa moral do trabalho se ajustasse bem a uma reduzida capacidade de organização social. Não admira que fossem precárias, nessa gente, as idéias de solidariedade. Essa, entre eles, existe somente onde há vinculação de sentimentos. À exaltação da personalidade só pode haver uma alternativa: a renúncia a essa mesma personalidade em vista de um bem maior. Por isso mesmo que rara e difícil, a obediência aparece algumas vezes, para os povos ibéricos, como virtude suprema entre todas. A vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens são-lhe igualmente peculiares. As ditaduras e o Santo Ofício parecem constituir formas tão típicas de seu caráter como a inclinação à anarquia e à desordem.
É em vão que temos procurado importar dos sistemas de outros povos modernos, ou criar por conta própria, um substituto adequado, capaz de superar os efeitos de nosso natural inquieto e desordenado. Toda cultura só absorve em geral os traços de outras culturas, quando estes encontram uma possibilidade de ajuste aos seus quadros de vida. Nem o contato e a mistura com raças indígenas ou adventícias fizeram-nos tão diferentes dos nossos avós de além-mar como às vezes gostaríamos de sê-lo. No caso brasileiro, a verdade é que ainda nos associa à península ibérica, a Portugal, uma tradição longa, bastante viva para nutrir, até hoje, uma alma comum, a despeito de tudo quanto nos separa. Podemos dizer que de lá nos veio a forma atual de nossa cultura.

Capítulo 2 – Trabalho & Aventura
Essa exploração dos trópicos não se processou por um empreendimento metódico e racional, fez-se antes com desleixo e certo abandono.
A colonização holandesa não nos teria levado a melhores e mais gloriosos rumos.
Dois princípios se combatem e regulam as atividades dos homens. Encarnam-se nos tipos do aventureiro e do trabalhador.
Para o aventureiro, o objeto final assume relevância tão capital que chega a dispensar todos os processos intermediários. Seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore.
O trabalhador, ao contrário, é aquele que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. O esforço lento, pouco compensador e persistente, tem sentido bem nítido para ele.
O indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro. Por outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros.
Na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao “trabalhador” papel muito limitado. A época predispunha aos gestos e façanhas audaciosos, galardoando bem os homens de grandes vôos. E não foi fortuita a circunstância de se terem encontrado neste continente, empenhadas nessa obra, principalmente as nações onde o tipo do trabalhador encontrou ambiente menos propício.
Se isso é verdade tanto de Portugal como da Espanha, não o é menos da Inglaterra. A verdade é que o inglês típico tende para a indolência, e estima, acima de tudo, a “boa vida”. Para alguns os holandeses, alemães e franceses não são indolentes como os ingleses.
Essa pouca disposição para o trabalho não deixa de constituir o aspecto negativo do ânimo que gera as grandes empresas.
Essa ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis, tão notoriamente característica da gente de nossa terra, não é bem uma das manifestações mais cruas do espírito de aventura?
O gosto da aventura teve influência decisiva em nossa vida nacional. Foi o elemento orquestrador por excelência. Favorecendo a mobilidade social, estimulou os homens a enfrentar com denodo as asperezas ou resistências da natureza e criou-lhes as condições adequadas a tal empresa (empreendimento).
Nesse ponto, os portugueses e seus descendentes imediatos foram inexcedíveis. Procurando recriar aqui o meio de sua origem, fizeram-no com uma facilidade que ainda não encontrou, talvez, segundo exemplo na história.
Sistema de lavoura: foi a circunstância de não se achar a Europa industrializada ao tempo dos descobrimentos (de modo que produzia gêneros agrícolas em quantidade suficiente para seu próprio consumo, só carecendo efetivamente de produtos naturais dos climas quentes) que tornou possível e fomentou a expansão desse sistema agrário. O clima e outras condições físicas peculiares a regiões tropicais só contribuíram de modo indireto.
A abundância de terras férteis e ainda mal desbravadas fez com que a grande propriedade rural se tornasse, aqui, a verdadeira unidade de produção. Cumpria apenas resolver o problema do trabalho. E verificou-se, frustradas as primeiras tentativas de emprego do braço indígena, que o recurso mais fácil estaria na introdução de escravos africanos. A presença do negro representou sempre fator obrigatório no desenvolvimento dos latifúndios coloniais. Só com alguma reserva se pode aplicar a palavra “agricultura” aos processos de exploração da terra.
A técnica européia serviu apenas para fazer ainda mais devastadores os métodos rudimentares de que se valia o indígena em suas plantações.
O que o português vinha buscar era a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho. Os lucros que proporcionou de inicio, o esforço de plantar a cana e fabricar o açúcar compensavam abundantemente esse esforço, mas era preciso que fosse muito simplificado.
Não foi, por conseguinte, uma civilização tipicamente agrícola o que instauraram os portugueses no Brasil com a lavoura açucareira.
Por que não?
- Porque a tanto não conduzia o gênio aventureiro que os trouxe à América;
- Por causa da escassez da população do reino, que permitisse emigração em larga escala de trabalhadores rurais;
- Pela circunstância de a atividade agrícola não ocupar então, em Portugal, posição de primeira grandeza. O labor agrícola era menos atraente para seus compatriotas do que as aventuras marítimas e as glórias da guerra e da conquista.
Fatores que impediram o crescimento da lavoura no Brasil:
- Os descritos acima;
- O meio tropical oferece muitas vezes poderosos e inesperados obstáculos à implantação de tais melhoramentos.
- O escasso emprego do arado (dificuldades que ofereciam ao seu manejo os resíduos da pujante vegetação florestal).
- Pouca resistência dos animais que puxavam o arado, como também de custarem as terras mais a abrir pela sua fortaleza.
- Busca de novas terras em lugares de mato dentro; constante mudança das fazendas; transitoriedade; faltava estímulo a melhoramentos de qualquer natureza.
- Noção de que o trabalho de enxada é o único que as nossas terras suportam ganhou logo crédito. A força dessa convicção logo contagiava os filhos do reino.
- Ainda em nossos dias, os mesmos métodos predatórios e dissipadores se acham em uso.
O contraste entre as condições da lavoura brasileira e as que pela mesma época prevaleciam no sul dos Estados Unidos é mais apreciável do que as semelhanças. Depoimentos da época refletem o pasmo causado entre muitos deles (fazendeiros oriundos dos estados confederados) pelos processos alarmantemente primitivos que encontraram em uso (no Brasil).
Todos queriam extrair do solo excessivos benefícios sem grandes sacrifícios. Queriam servir-se da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, “só para a desfrutarem e a deixarem destruída”.
Nossos colonizadores aclimaram-se facilmente, cedendo às sugestões da terra e dos seus primeiros habitantes, sem cuidar de impor-lhes normas fixas e indeléveis. Entre nós, o domínio europeu foi em geral, brando e mole, menos obediente a regras e dispositivos do que à lei da natureza. A vida parece ter sido aqui incomparavelmente mais suave, mais acolhedora das dissonâncias sociais, raciais, e morais. Nossos colonizadores eram homens que sabiam repetir o que estava feito ou o que lhes ensinara a rotina. Bem assentes no solo, não tinham exigências mentais muito grandes e o Céu parecia-lhes uma realidade excessivamente espiritual, remota, póstuma, para interferir em seus negócios de cada dia.
Cumpre acrescentar outra face bem nítida de sua plasticidade social: a ausência completa, entre eles, de qualquer orgulho de raça. Essa modalidade de seu caráter explica-se muito pelo fato de serem os portugueses, em parte, um povo de mestiços, por ostentarem um contingente maior de sangue negro. A mistura com gente de cor tinha começado amplamente na própria metrópole (pretos eram trazidos das possessões ultramarinas à metrópole). Por volta de 1536, essa silenciosa invasão ameaçava transtornar os próprios fundamentos biológicos onde descansava tradicionalmente a sociedade portuguesa.
Compreende-se assim, que já fosse pequeno o sentimento de distância entre os dominadores, aqui, e a massa de trabalhadora constituída de homens de cor. O escravo das plantações e das minas não era um simples manancial de energia. Com freqüência as suas relações com os donos oscilavam da situação de dependente para a de protegido, e até de solidário e afim. Sua influência penetrava o recesso doméstico, agindo como dissolvente de qualquer idéia de separação de castas ou raças. Era essa a regra geral, embora houvessem exceções. Todavia, a tendência da população pendia para um abandono de todas as barreiras sociais, políticas e econômicas entre brancos e homens de cor, livres e escravos.
O exclusivismo “racista” nunca chegou a ser o fator determinante das medidas que visavam reservar a brancos o exercício de determinados empregos. Muito mais decisivo teria sido o labéu (desonra) associado aos trabalhos vis a que obriga a escravidão e que não infamava apenas quem os praticava, mas igualmente seus descendentes. Não seria outra a explicação para o fato de se considerarem aptos os gentios da terra e os mamelucos (filho de índio com branco), a ofícios de que os pretos e mulatos ficavam legalmente excluídos. O reconhecimento da liberdade civil dos índios tendia a distanciá-los do estigma social ligado à escravidão.
É curioso notar como algumas características atribuídas aos nossos indígenas e que os fazem menos compatíveis com a condição servil ajustam-se ao tradicionais padrões de vida das classes nobres. Deve ser por isso que, ao procurarem traduzir para termos nacionais a temática da Idade Média, própria do romantismo europeu, escritores do século passado iriam reservar ao índio virtudes de antigos fidalgos e cavaleiros.
Longe de condenar os casamentos mistos de indígenas e brancos, o governo português tratou de estimulá-los. Os pretos e descendentes de pretos continuavam relegados a trabalhos de baixa reputação que tanto degradam o individuo que os exerce, como sua geração.
Uma das conseqüências da escravidão e da hipertrofia da lavoura latifundiária na estrutura de nossa economia colonial foi a ausência de qualquer esforço sério de cooperação nas demais atividades produtoras. Pouca coisa existiu entre nós comparável à prosperidade dos grêmios de oficiais mecânicos já existentes no primeiro século da conquista de Lima.
No Brasil, a organização dos ofícios segundo moldes trazidos do reino teve seus efeitos perturbados pelas condições dominantes: preponderância absorvente do trabalho escravo, indústria caseira (capaz de garantir relativa independência aos ricos, entravando, por outro lado, o comércio), e escassez de artífices livres na maior parte das vilas e cidades.
Não se pode negar que existiam discriminações consagradas pelos costumes, e que uma intolerância maior prevaleceu constantemente com relação aos ofícios de mais baixa reputação social. Nos ofícios urbanos reinavam o mesmo amor ao ganho fácil e a infixidez que caracterizam, no Brasil, os trabalhos rurais. Poucos sabiam dedicar-se a vida inteira a um só mister sem se deixarem atrair por outro negócio lucrativo. Ainda mais raros seriam os casos em que um mesmo ofício perdurava na mesma família por mais de uma geração.
Era esse um dos empecilhos à constituição, entre nós, não só de um verdadeiro artesanato, mas ainda de oficiais habilitados para trabalhos que requerem vocação decidida e longo tirocínio (preparação prática). Outro empecilho vinha do recurso muito ordinário aos chamados “negros de ganho” ou “moços de ganho”, que trabalhavam mediante simples licenças obtidas pelos senhores em benefício exclusivo destes.
Da tradição portuguesa, pouca coisa se conservou entre nós que não tivesse sido modificada ou relaxada pelas condições adversas do meio.
O que nos faltou para o bom êxito de tantas formas de labor produtivo foi uma capacidade de livre e duradoura associação entre os elementos empreendedores do país.
Em sociedade de origens personalistas como a nossa, é compreensível que os simples vínculos de pessoa a pessoa tenham sido quase sempre os mais decisivos. As agregações e relações pessoais, embora por vezes precárias, e, de outro lado, as lutas entre facções, entre famílias, entre regionalismos, faziam dela um todo incoerente e amorfo. O peculiar da vida brasileira parece ter sido uma acentuação enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente.
À influência dos negros, não apenas como negros, mas sobretudo como escravos, essa população não tinha como oferecer obstáculos. Uma suavidade dengosa e açucarada invade todas as esferas da vida colonial. A “moral das senzalas” veio a imperar na administração, na economia e nas crenças religiosas dos homens do tempo.
Holandeses tinham espírito de empreendimento metódico e coordenado, em capacidade de trabalho e em coesão social. Apenas o tipo de colonos que eles nos puderam enviar era o menos adequado a um país em formação. O malogro de várias experiências coloniais dos Países Baixos no continente americano, durante o século XVIII, foi atribuído à ausência, na mãe pátria, de descontentamentos que impelissem à migração em larga escala. Esse malogro representou o testemunho do bom êxito da República holandesa como comunidade nacional. Essa gente ia apinhar-se no Recife, estimulando assim a divisão clássica entre o engenho e a cidade.
Esse progresso urbano era ocorrência nova na vida brasileira, e ocorrência que ajuda a melhor distinguir, um do outro, os processos colonizadores de “flamengos” e portugueses. Ao passo que em todo o resto do Brasil as cidades continuavam simples e pobres dependências dos domínios rurais, a metrópole pernambucana “vivia por si”. Destacavam-se nela palácios, parques, institutos científicos e culturais, organismos políticos e administrativos, a sede do governo.
O zelo dos holandeses na sua empresa colonial, dificilmente transpunha os muros das cidades e não podia implantar-se na vida rural de nosso Nordeste, sem desnaturá-la e perverter-se. Só um ou outro arriscava-se a abandonar a cidade pelas plantações de cana. Pensaram resolver o problema, tentando importar numerosas famílias de lavradores da mãe-pátria. Esperou-se em vão.
O insucesso da experiência holandesa no Brasil é mais uma justificativa para a opinião de que os europeus do Norte são incompatíveis com as regiões tropicais.
Ao contrário do que sucedeu com os holandeses, o português entrou em contato íntimo com a população de cor. O bom êxito dos portugueses resultou de não terem sabido manter a própria distinção com o mundo que vinham povoar. Sua fraqueza foi sua força. A própria língua portuguesa parece ter encontrado, em confronto com a holandesa, disposição particularmente simpática em muitos desses homens rudes (índios e negros).
Ao oposto do catolicismo, a religião reformada, trazida pelos holandeses, não oferecia nenhuma espécie de excitação aos sentidos ou à imaginação dessa gente. Não faltaram entre eles (holandeses) esforços constantes para chamar a si os pretos e indígenas do país. O que parece ter faltado em tais contatos foi a simpatia transigente e comunicativa que a Igreja Católica, mais universalista ou menos exclusivista do que o protestantismo, sabe infundir nos homens, ainda quando as relações existentes entre eles nada tenham, na aparência, de impecáveis.

Capítulo 3 – Herança Rural
Toda a estrutura de nossa sociedade colonial teve sua base fora dos meios urbanos. Se não foi uma civilização agrícola o que os portugueses instauraram no Brasil, foi, sem dúvida, uma civilização de raízes rurais. 1888 representa o marco divisório entre duas épocas.
Na Monarquia eram ainda os fazendeiros escravocratas e eram filhos dos fazendeiros quem monopolizava a política fundando a estabilidade das instituições nesse incontestado domínio. Tão incontestado que muitos representantes da classe dos antigos senhores puderam dar-se ao luxo de inclinações antitradicionalistas e mesmo de empreender alguns dos mais importantes movimentos liberais. A eles também se deve o bom êxito de progressos materiais que tenderiam a arruinar a situação tradicional, minando aos poucos o prestígio de sua classe e o trabalho escravo.
Nunca talvez, fomos envolvidos, em tão breve período, por uma febre tão intensa de reformas como a que se registrou nos meados de 1851 a 1855. O caminho aberto por semelhantes transformações só poderia levar a uma liquidação mais ou menos rápida de nossa velha herança rural e colonial, ou seja, da riqueza que se funda no emprego do braço escravo e na exploração extensiva e perdulária das terras de lavoura.
Não é por simples coincidência cronológica que um período de excepcional vitalidade tenha ocorrido nos anos que se seguem imediatamente ao primeiro passo dado para a abolição da escravidão, ou seja, a supressão do tráfico negreiro. Passo decisivo e heróico, tendo-se em conta a trama de interesses mercantis poderosos e prejuízos que a Lei Euzébio de Queirós iria golpear de face (intensificação das atividades britânicas de repressão ao tráfico).
Essa extinção de um comércio que constituíra a origem de algumas das maiores fortunas brasileiras do tempo deveria deixar em disponibilidade os capitais até então comprometidos na importação de negros. A possibilidade de interessá-los em outros ramos de negócios não escapou a alguns espíritos esclarecidos. A própria fundação do Banco do Brasil de 1851 está, segundo parece, relacionada com um plano de aproveitamento de tais recursos.
Das cinzas do tráfico negreiro, iria surgir uma era de aparato sem precedentes em nossa história comercial. A ânsia de enriquecimento, favorecida pelas excessivas facilidades de crédito, contaminou logo todas as classes e foi uma das características notáveis desse período de “prosperidade”.
Ao otimismo daqueles que, sob o regime da ilimitada liberdade de crédito, alcançavam riquezas rápidas, correspondia a perplexidade e o descontentamento de outros, mais duramente atingidos pelas conseqüências da cessação do tráfico.
A própria instabilidade das novas fortunas, vinha dar boas razões a esses nostálgicos do Brasil rural e patriarcal. Eram dois mundos distintos que se hostilizavam com rancor crescente, duas mentalidades que se opunham. A presença de tais conflitos já parece denunciar a imaturidade do Brasil escravocrata para transformações que lhe alterassem profundamente a fisionomia. A obra começada em 1850 só se completará efetivamente em 1888. Durante esse intervalo, as resistências hão de partir não só dos elementos mais abertamente retrógrados, representados pelo escravismo impenitente, mas também das forças que tendem à restauração de um equilíbrio ameaçado. Enquanto perdurassem poderosos os padrões econômicos e sociais herdados da era colonial e expressos principalmente na grande lavoura servida pelo braço escravo, as transformações mais ousadas teriam de ser superficiais e artificiosas.
Lei Ferraz, de 22 de agosto de 1860 (arrocho em matéria de crédito, apelo à realidade) apenas veio precipitar a tremenda crise comercial de 1864. Essa crise foi o desfecho normal de uma situação insustentável nascida da ambição de vestir um país ainda preso à economia escravocrata com os trajes modernos de uma grande democracia burguesa.
A opinião de que um indivíduo filiado a determinado partido político assumiu compromissos que não pode romper pertence a um circulo de idéias que a ascensão da burguesia urbana tenderia a depreciar cada vez mais. Segundo tal concepção, as facções são constituídas à semelhança das famílias de estilo patriarcal, onde os vínculos biológicos e afetivos hão de preponderar sobre as demais considerações. Os membros se acham associados por sentimentos e deveres, nunca por interesses e idéias.
Dos senhores de engenho brasileiros, dos lavradores livres, obrigados ou mesmo arrendatários, dissera alguém, em fins do século XVIII, que formavam um corpo “tão nobre por natureza, que em nenhum outro país se encontra outro igual a ele”.
Nos domínios rurais, a autoridade do proprietário de terras não sofria réplica. Tudo se fazia consoante sua vontade, muitas vezes caprichosa e despótica. O engenho constituía um organismo completo e que, tanto quanto possível, se bastava a si mesmo. Com pouca mudança tal situação prolongou-se até bem depois da Independência.
Dos vários setores de nossa sociedade colonial, foi a esfera da vida doméstica aquela onde o princípio de autoridade se mostrou menos acessível às forças corrosivas que de todos os lados o atacavam. Sempre imerso em si mesmo, não tolerando nenhuma pressão de fora, o grupo familiar mantém-se imune de qualquer restrição ou abalo. Em seu recatado isolamento pode desprezar qualquer princípio superior que procure perturbá-lo ou oprimi-lo.
Nesse ambiente, o pátrio poder é virtualmente ilimitado e poucos freios existem para sua tirania. O quadro familiar torna-se tão poderoso que sua sombra persegue os indivíduos mesmo fora do recinto doméstico. A entidade privada precede sempre, neles, a entidade pública. A nostalgia dessa organização compacta, única e intransferível, onde prevalecem as preferências fundadas em laços afetivos, não podia deixar de marcar nossa sociedade, nossa vida pública, todas as nossas atividades. A família colonial fornecia a idéia mais normal do poder, da respeitabilidade, da obediência e da coesão entre os homens. O resultado era predominarem, em toda a vida social, sentimentos próprios à comunidade doméstica, naturalmente particularista e antipolítica, uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família.
Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, os senhores rurais principiam a perder sua posição privilegiada. Outras ocupações reclamam agora igual eminência, ocupações citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
Semelhantes ocupações couberam, em primeiro lugar, à gente principal do país, constituída de lavradores e donos de engenho. Transportada de súbito para as cidades, essa gente carregou consigo a mentalidade, os preconceitos e o teor da vida que tinham sido atributos de sua primitiva condição.
Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição suprema que nela detêm certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das manifestações do espírito prático ou positivo, em contraste com as atividades que requerem algum esforço físico.
O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir ocupação de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Amor à frase sonora, à erudição ostentosa. Inteligência há de ser ornamento, não instrumento de conhecimento e de ação.
O exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços tinha sido considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres. Opinião generalizada, de que o trabalho manual é pouco dignificante, em confronto com as atividades do espírito.
A qualidade particular dessa “inteligência”, corresponde numa sociedade de coloração aristocrática e personalista, à necessidade que sente cada indivíduo de se distinguir dos seus semelhantes por alguma virtude intransferível, semelhante à nobreza de sangue. A “inteligência” é, assim, um princípio antimoderno. Nada mais oposto ao sentido de todo o pensamento econômico oriundo da Revolução Industrial do que essa primazia conferida a certos fatores subjetivos.
A família patriarcal fornece o grande modelo por onde se hão de calcar, na vida política, as relações entre governantes e governados. Esse rígido paternalismo é tudo quanto se poderia esperar de mais oposto aos princípios que guiaram os homens de Estado norte-americanos na fundação e constituição de sua grande República.
No Brasil, o decoro que corresponde ao Poder e às instituições de governo não parecia conciliável com a importância assim atribuída a apetites tão materiais. Era preciso, para serem veneráveis, que as instituições fossem amparadas em princípios consagrados pelo costume e pela opinião.
A própria revolução de 1817 foi uma reedição da luta do senhor de engenho contra o mascate (vendedor ambulante). Vitoriosa, é pouco provável que suscitasse alguma transformação em nossa estrutura político-econômica. Entre os condutores do movimento, muitos pertenciam à nobreza da terra, e nada indica que estivessem preparados para despir-se das antigas prerrogativas.
O que era verdadeiro em 1817 não deixaria de sê-lo depois de nossa emancipação política. Em 1847, dirigindo-se aos praieiros, que tinham movido uma campanha justa contra a predominância de certas famílias de proprietários rurais em Pernambuco, Nabuco de Araújo podia notar como o espírito anti-social e perigoso representado por essas famílias era um vício “que nasceu da antiga organização e que nossas revoluções e civilização não puderam acabar”.
Era difícil ultrapassarem-se os limites que à nossa vida política tinham traçado certas condições especificas geradas pela colonização portuguesa. Certas atitudes peculiares, até então, ao patriciado rural logo se tornaram comuns a todas as classes como norma ideal de conduta. Estereotipada por longos anos de vida rural, a mentalidade da casa-grande invadiu assim as cidades e conquistou todas as profissões, sem exclusão das mais humildes. Muitas das dificuldades observadas, desde velhos tempos, no funcionamento dos nossos serviços públicos, devem ser atribuídas às mesmas causas.
Com o crescimento dos núcleos urbanos, o processo de absorção das populações rurais encontra aqui menores resistências do que nos países europeus.
Ao menos em sua etapa inicial, esse processo correspondeu a um desenvolvimento da situação de dependência em que se achavam as cidades em face dos domínios agrários. Na ausência de uma burguesia urbana independente, os candidatos às funções criadas recrutam-se entre indivíduos da massa dos antigos senhores rurais, portadores de mentalidade e tendência dessa classe. Toda a ordem administrativa do país, durante o Império e mesmo depois no regime republicano, há de comportar elementos vinculados ao velho sistema senhorial.
Constituímos uma estrutura “sui generis”. A regra, em todo o mundo e em todas as épocas, foi sempre o contrário: a prosperidade dos meios urbanos fazendo-se à custa dos centros de produção agrícola. Se não tivemos entre nós justamente o contrário, é por ter sido precário o incremento das nossas cidades durante o período colonial. Naquele período, os centros urbanos brasileiros nunca deixaram de se ressentir da ditadura dos domínios rurais (caráter próprio das nossas cidades coloniais). As funções mais elevadas cabiam nelas aos senhores de terras. São comuns em nossa história colonial as queixas dos comerciantes, habitadores das cidades, contra o monopólio das poderosas câmaras municipais pelos lavradores. A pretensão dos mercadores de se ombrearem com os proprietários rurais passava por impertinente.
Não admira que os senhores de terras fossem praticamente os únicos verdadeiros “cidadãos” na colônia. No Brasil colonial, as terras dedicadas à lavoura eram a morada habitual dos grandes. Só afluíam eles aos centros urbanos a fim de assistirem aos festejos e solenidades. Nas cidades apenas residiam alguns funcionários da administração, oficiais mecânicos e mercadores em geral. Sucedia assim que, os proprietários se descuidavam de suas habitações urbanas, dedicando todo o zelo à moradia rural, onde estava o principal de seus haveres e onde podiam receber aos hóspedes e visitantes.
As referências que se acabam de citar relacionam-se com o primeiro e o segundo século da colonização; já no terceiro século, a vida urbana parece adquirir mais caráter com a prosperidade dos comerciantes nas cidades.
Não devia ser muito favorável às cidades a comparação entre a vida urbana e a rural por essa época. As pessoas de casas nobres e distintas viviam retiradas em suas fazendas e engenhos.
Ainda durante a segunda metade do século XVIII persistia bem nítido o estado de coisas que caracteriza a nossa vida colonial desde os seus primeiros tempos. A pujança dos domínios rurais, comparada à mesquinhez urbana, representa fenômeno que se instalou aqui com os colonos portugueses, desde que se fixaram à terra.
O predomínio esmagador do ruralismo, foi antes um fenômeno típico do esforço dos nossos colonizadores do que uma imposição do meio.

Capítulo 4 – O Semeador e o Ladrilhador
Para muitas nações conquistadoras, a construção de cidades foi o mais decisivo instrumento de dominação que conheceram. A experiência tem demonstrado que este recurso, entre todos, é o mais duradouro e eficiente.
A colonização espanhola caracterizou-se pelo que faltou à portuguesa: aplicação insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político da metrópole sobre as terras conquistadas, mediante a criação de grandes núcleos de povoação estáveis e bem ordenados. Um zelo minucioso e previdente dirigiu a fundação das cidades espanholas na América.
O próprio traçado dos centros urbanos na América espanhola denuncia o esforço determinado de vencer e retificar a paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana, aspiração de ordenar e dominar o mundo conquistado. O traço retilíneo manifesta bem esta deliberação e não é por acaso que ele impera em todas essas cidades espanholas.
Leis que devem reger a fundação das cidades na América exibem senso burocrático das minúcias: cuidados na procura do lugar que se fosse povoar; a construção da cidade começaria sempre pela praça maior; a povoação partia nitidamente de um centro. No plano das cidades hispano-americanas, o que se exprime é a idéia de que o homem pode intervir com sucesso no curso das coisas e de que a história não somente “acontece”, mas tbém pode ser dirigida e até fabricada.
Na América portuguesa, a obra dos jesuítas foi uma rara exceção, pois o empreendimento de Portugal, parece tímido e mal aparelhado. Comparado ao dos catelhanos em suas conquistas, o esforço dos portugueses distingue-se pela predominância de seu caráter de exploração comercial.
Os catelhanos, ao contrario, querem fazer do país ocupado um prolongamento do seu. O fato de se fundarem várias universidades nas possessões de Castela durante o período colonial, mostra o seu desejo de fazer das novas terras mais do que simples feitorias comerciais.
No Brasil, a colônia é simples lugar de passagem, para o governo como para os súditos. Já os castelhanos, prosseguiram no Novo Mundo a luta contra os infiéis; reproduziram os mesmos processos já empregados na colonização de suas terras da metrópole depois de expulsos os discípulos de Maomé. Nas regiões de nosso continente que couberam aos castelhanos, o clima não oferecia grandes incômodos.
A colonização portuguesa foi litorânea e tropical; a castelhana foge deliberadamente da marinha, preferindo as terras do interior e os planaltos. Só em caso de haver bons portos é que se poderiam instalar povoações novas ao longo da orla marítima e somente aquelas indispensáveis para se facilitar a entrada, o comércio e a defesa da terra.
Já os portugueses criavam todas as dificuldades às entradas adentro, receosos de que com isso se despovoasse a marinha.
As “cartas de doação das capitanias” (segundo as quais poderão os donatários edificar junto do mar e dos rios quantas vilas quiserem) parece ser outra medida destinada a conter (segurar) a povoação no litoral – caso da D. Ana Pimentel que em 1554 anulou a proibição feita pelo seu marido (donatário de S. Vicente) aos moradores do litoral de irem tratar nos campos de Piratininga. Esta atitude foi lamentada até mesmo no séc XVIII por frei Gaspar da Madre de Deus e pelo ouvidor Cleto por ter causado prejuízo às terras litorâneas da capitania.
Os gêneros produzidos junto ao mar podiam conduzir-se facilmente à Europa e os do sertão, ao contrário, demoravam a chegar aos portos e, se chegassem, seria com altas despesas.
A expansão dos pioneers (pioneiros, bandeirantes) paulistas não tinha suas raízes do outro lado do oceano, podia dispensar o estímulo da metrópole e fazia-se contra a vontade e contra os interesses desta. Esses audaciosos caçadores de índios, farejadores e exploradores de riqueza, foram, antes do mais, puros avetureiros – só quando as circunstancias o forçavam é que se faziam colonos; antes do descobrimento das minas, não realizaram obra colonizadora, salvo esporadicamente.
No terceiro séc do domínio português é que temos um afluxo maior de emigrantes para além da faixa litorânea, com o descobrimento do ouro das Gerais. Governo tenta impedir essa emigração, mas mesmo assim ela ocorre largamente. Estrangeiros estavam excluídos delas entre outros (monges, padres sem emprego, negociantes, estalajadeiros e todos que pudessem não ir ao serviço exclusivo da insaciável avidez da metrópole). Pretendeu-se fazer uso de um derradeiro recurso, o da proibição de passagens para o Brasil.
Só então é que Portugal delibera intervir mais energicamente nos negócios de sua possessão, isso para reprimir e não para edificar alguma coisa de permanente, mas sim para absorver tudo quanto lhe fosse de proveito imediato. Se verifica isso na Demarcação Diamantina.
O descobrimento das minas, sobretudo de diamantes foi o que determinou finalmente Portugal a pôr um pouco mais de ordem em sua colônia com o objetivo de desfrutarem, sem maior trabalho, dos benefícios. Para tal se utilizou a tirania.
A facilidade das comunicações por via marítima ou fluvial, tão menosprezada pelos castelhanos, constituiu o fundamento do esforço colonizador de Portugal. Os regimentos da Coroa Portuguesa, quando sucedia tratarem de regiões fora da beira-mar, insistiam sempre em que se povoassem somente as partes que ficavam à margem das grandes correntes navegáveis. A legislação espanhola, ao contrário, mal se refere à navegação fluvial como meio de comunicação; o transporte dos homens e mantimentos podia ser feito por terra.
No Brasil, a exploração litorânea praticada pelos portugueses encontrou mais uma facilidade no fato de se achar a costa habitada de uma única família de indígenas, que de norte a sul falava um mesmo idioma. Onde a expansão dos tupis sofria um hiato, interrompia-se também a colonização branca, salvo em casos excepcionais. Mal tinham os portugueses outra noticia do gentio do sertão além do que lhes referia a gente costeira. Não importava muito aos colonizadores povoar e conhecer mais do que as terras da marinha (comunicação mais fácil com o Reino).
A fisionomia mercantil dessa colonização exprime-se no sistema de povoação litorânea (ao alcance dos portos de embarque) e no desequilíbrio entre o esplendor rural e a miséria urbana. Essas duas manifestações são de particular significação pela luz que projetam sobre as fases ulteriores de nosso desenvolvimento social.
A obra realizada no Brasil pelos portugueses teve um caráter mais acentuado de feitorização do que de colonização. Não convinha que aqui se fizessem grande obras, ao menos quando não produzissem imediatos benefícios. Nada que acarretasse maiores despesas ou resultasse em prejuízo para a metrópole. Era rigorosamente proibida a produção de artigos que pudessem competir com os do Reino.
A administração portuguesa parece relativamente mais liberal do que a das possessões espanholas. Foi admitida aqui a livre entrada de estrangeiros que se dispusessem a vir trabalhar. Aos estrangeiros era permitido percorrerem as costas brasileiras na qualidade de mercadores, desde que se obrigassem a pagar imposto de importação, e desde que não traficassem com os indígenas. Só mudou em 1600, durante o domínio espanhol, quando Felipe II ordenou fossem excluídos todos os estrangeiros do Brasil.
Essa liberalidade dos portugueses pode parecer uma atitude negativa, mal definida, e que proviria de sua moral interessada, moral de negociantes. Pouco importa aos nossos colonizadores que seja frouxa e insegura a disciplina.
A fantasia com que em nossas cidades, comparadas às da América espanhola, se dispunham muitas vezes as ruas ou habitações é um reflexo de tais circunstâncias. As casas se achavam dispostas segundo o capricho dos moradores. Tudo ali era irregular.
O traçado geométrico jamais pôde alcançar, entre nós, a importância que veio a ter em terras da Coroa de Castela: o desenvolvimento posterior dos centros urbanos repeliu aqui esse esquema inicial para obedecer antes às sugestões topográficas.
A rotina e não a razão abstrata foi o principio que norteou os portugueses, nesta como em tantas outras expressões de sua atividade colonizadora. Preferiam agir por experiências sucessivas, nem sempre coordenadas umas às outras, a traçar de antemão um plano para segui-lo até o fim.
A cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência, sempre esse significativo abandono que exprime a palavra “desleixo” – palavra que implica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que “não vale a pena …”.
A expansão dos portugueses no mundo representou sobretudo obra de prudência, de juízo discreto. Uma coragem sem dúvida obstinada, mas raramente descomedida, constitui traço comum de todos os grandes marinheiros lusitanos.
A grandeza heróica de seus cometimentos e a importância do alto pensamento que os presidia foram vivamente sentidas desde cedo pelos portugueses. A idéia de que superavam as lendárias façanhas de gregos e romanos impõe-se como lugar-comum de sua literatura quinhentista. É significativo que essa exaltação literária caminhe em escala ascendente na medida em que se vai tornando tangível o descrédito e o declínio do poderio português. É uma espécie de engrandecimento retrocessivo e de intenção quase pedagógica.
De nenhuma das maiores empresas ultramarinas dos portugueses parece lícito dizer que foi popular no reino. O próprio descobrimento do caminho da Índia, é notório que o decidiu el-rei contra a vontade dos seus conselheiros.
A relativa infixidez das classes sociais fazia com que essa ascensão da burguesia mercantil não encontrasse em Portugal forte estorvo. Todos aspiravam à condição de fidalgos. Os valores sociais e espirituais vinculados a essa condição, também se tornariam propriedade característica da burguesia em ascenção.
À medida que subiam na escala social, as camadas populares deixavam de ser portadoras de sua primitiva mentalidade de classe para aderirem à dos antigos grupos dominantes. Nenhuma das “virtudes econômicas” ligadas à burguesia pôde, por isso, conquistar bom crédito. Aquelas virtudes – diligência pertinaz, parcimônia, exatidão, pontualidade, solidariedade social – nunca se acomodariam perfeitamente ao gosto da gente lusitana.
A “nobreza nova” do Quinhentos era-lhe adversa: por indignas de seu estado, por evocarem uma condição social a que ela se achava ligada pela origem, não pelo orgulho. Daí, seu desejo constante em romper os laços com o passado, na medida em que o passado lhe representava aquela origem, e de robustecer em si mesma o que parecesse atributo inseparável da nobreza genuína.
A invenção e a imitação tomaram o lugar da tradição quando se tinham alargado as brechas nas barreiras que, em Portugal, separavam as diferentes camadas da sociedade. Aos poucos, vão desapegando dos velhos e austeros costumes e dando moldura vistosa à nova consciência de classe. Os que agora surgem só querem andar de capa de veludo, chapéus com fitas de ouro, espadas e adagas douradas, etc. Vai se perdendo o antigo brio e valor dos lusitanos. O que prezam acima de tudo os fidalgos quinhentistas são as aparências ou exterioridades por onde se possam distinguir da gente humilde.
Sobre essa paisagem de decadência, deve situar-se a exasperação nativista de um Antônio Ferreira e o “som alto de sublimado” dos Lusíadas.
Para esse modo d entender ou de sentir, não são os artifícios, nem é a imaginação pura e sem proveito, ou a ciência, que podem tornar sublimes os homens. O crédito há de vir pela mão da natureza, como um dom de Deus, ou pelo exercício daquele bom senso amadurecido na experiência.
Quanto à poesia portuguesa, a ordem que aceita não é a que compõem os homens com trabalho, mas a que fazem com desleixo e certa liberdade; a ordem do semeador, não a do ladrilhador.
A visão do mundo que assim se manifesta, deixou seu cunho impresso nas mais diversas esferas da atividade dos portugueses, mormente no domínio que nos interessa: o da expansão colonizadora. Nenhum estímulo vindo de fora os incitaria a tentar dominar seriamente o curso dos acontecimentos, a torcer a ordem da natureza.
Será instrutivo o confronto que se pode traçar entre eles e os outros povos hispânicos. A fúria centralizadora, codificadora, uniformizadora de Castela, que tem sua expressão mais nítida no gosto dos regulamentos meticulosos, vem de um povo inteiramente desunido e sob permanente ameaça de desagregação. Povo que precisou lutar, dentro de suas próprias fronteiras peninsulares. O amor à uniformidade e à simetria surge como um resultado da carência de verdadeira unidade.
Portugal, por esse aspecto, é um país comparativamente sem problemas. Sua unidade política, realizara-a desde o século XIII, antes de qualquer outro Estado europeu moderno, e em virtude da colonização das terras meridionais, libertas do sarraceno, fora-lhe possível alcançar apreciável homogeneidade étnica. A essa precoce satisfação, explica-se como o natural conservantismo, o deixar estar – o “desleixo” – pudessem sobrepor-se tantas vezes entre eles à ambição de arquitetar o futuro, de sujeitar o processo histórico a leis rígidas. Restava, sem dúvida, uma força suficientemente poderosa e arraigada nos corações para imprimir coesão e sentido espiritual à simples ambição de riquezas.
Ao menos nas dependências ultramarinas de Portugal, o catolicismo acompanhou quase sempre o relaxamento usual. Os monarcas portugueses, com o patronato nas terras descobertas, exerceram entre nós um poder praticamente ilimitado sobre os assuntos eclesiásticos, segundo suas conveniências momentâneas. A Igreja transformara-se em simples braço do poder secular.
Como corporação, a Igreja podia ser aliada a até cúmplice fiel do poder civil; como indivíduos, porém, os religiosos lhe foram constantemente contrários. As constantes intromissões das autoridades nas coisas da igreja tendiam a provocar no clero uma atitude de latente revolta contra as administrações. Subordinando clérigos e leigos ao mesmo poder por vezes caprichoso e despótico, essa situação estava longe de ser propícia à influência da Igreja e, até certo ponto, das virtudes cristãs na formação da sociedade brasileira. Os maus padres nunca representaram exceções em nosso meio colonial. E os que pretendessem reagir contra o relaxamento geral dificilmente encontrariam meios para tanto.

Capítulo 5 – O Homem Cordial
O Estado não é uma ampliação do círculo familiar nem uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particulares, de que a família é o melhor exemplo. Entre o círculo familiar e o Estado existe uma descontinuidade e até uma oposição. Pertencem a ordens diferentes em essência.
A ordem familiar, em sua forma pura, é abolida por uma transcendência. Não entender isso gera crises graves que podem afetar profundamente a sociedade.
Nas velhas corporações formavam-se como se uma só família, partilhavam-se das mesmas privações e confortos. Foi o moderno sistema industrial que suprimiu a atmosfera de intimidade que reinava entre empregadores e empregados e estimou os antagonismos de classe. Para o empregador moderno o empregado transforma-se em simples número: a relação humana desapareceu.
Persistem algumas destas famílias “retardatárias” concentradas em si mesmas, mas tendem a desaparecer ante as exigências imperativas. Teorias modernas tendem a separar o indivíduo da comunidade domestica. Essa separação representa as condições primárias para qualquer adaptação à “vida prática”.
A formação da sociedade segundo conceitos atuais tende a ser precária onde quer que prospere a idéia de família, principalmente a de tipo patriarcal.
A formação de homens públicos capazes no Brasil se deveu ao fato de muitos jovens terem saído do seio de suas famílias, rompendo-se assim os laços familiares.
No Brasil, onde imperou o tipo primitivo de família patriarcal, o desenvolvimento da urbanização ia acarretar um desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem.
Aqueles que foram formados por tal ambiente familiar patriarcal tinham dificuldade de compreender a diferenças entre o público e o privado. Para o funcionário “patrimonial” a gestão política se apresenta como assunto de interesse particular, o que não deveria acontecer no verdadeiro Estado burocrático. Neste velho estado de coisas, a escolha das pessoas para exercer função pública se dá mediante confiança pessoal e não segundo critérios de capacidade.
Falta a ordenação impessoal que caracteriza a vida no Estado burocrático. As relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós.
A contribuição brasileira para a civilização: o “homem cordial”.Características do homem cordial:
- sente pavor em viver consigo mesmo;
- para ele, a parcela social, periférica no brasileiro tende a ser o que mais importa;
- brasileiros sentem dificuldade de uma reverência prolongada ante um superior;
- reverência sim, desde que não suprimam possibilidade de convívio mais familiar;
- para outros manifestação normal de respeito, para nós desejo de intimidade;
- esse modo de ser reflete-se em nossa inclinação para emprego de diminutivos;
- tendência de omissão do nome de família prevalecendo nome individual;
- uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que poucos estrangeiros entendem com facilidade;
- tratamento dos santos com uma intimidade quase desrespeitosa e o próprio Deus é um amigo familiar, doméstico e próximo;
- horror às distâncias interpessoais e até no campo espiritual;
- O rigor do rito se afrouxa e se humaniza.

Capítulo 6 – Novos Tempos
Nossa conduta denuncia um apego singular aos valores da personalidade configurada pelo recinto doméstico. Cada indivíduo afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas.
Só raramente nos aplicamos de corpo e alma a um objeto exterior a nós mesmos. E quando fugimos à norma é por simples gosto de retirada, descompassado e sem controle, jamais regulados por livre iniciativa. Somos notoriamente avessos às atividades morosas e monótonas em que o sujeito se submeta deliberadamente a um mundo distinto dele: a personalidade individual dificilmente suporta ser comandada por um sistema exigente e disciplinador.
No trabalho não buscamos senão a própria satisfação, ele tem o seu fim em nós mesmos e não na obra. As atividades profissionais são, aqui, meros acidentes na vida dos indivíduos.
Novos bacharéis só excepcionalmente farão uso na vida prática dos ensinos recebidos. Inclinação geral para as profissões liberais. Prestígio das profissões liberais. No vício do bacharelismo ostenta-se nossa tendência para exaltar a personalidade individual como valor próprio. A sedução exercida pelas carreiras liberais vincula-se ao nosso apego quase exclusivo aos valores da personalidade. Não é outro o motivo da ânsia pelos meios de vida definitivos, que dão segurança exigindo um mínimo de esforço pessoal (empregos públicos).
Amor pronunciado pelas formas fixas e pelas leis genéricas, prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, do pensamento inflexível, o horror ao vago, ao hesitante, ao fluido, que obrigam à colaboração, ao esforço, a certa dependência e abdicação da personalidade, tem determinado nossa formação espiritual. Tudo quanto dispense qualquer trabalho mental fatigante, as idéias claras, lúcidas, definitivas, que favorecem uma espécie de atonia da inteligência, parecem-nos constituir a verdadeira essência da sabedoria.
O sucesso do positivismo entre nós explica-se por esse repouso que permite ao espírito as definições do sistema de Comte. A importância deste sistema prende-se à sua capacidade de resistir à fluidez e à mobilidade da vida. Não inspiraram qualquer sentido positivo aos nossos negócios públicos. As virtudes que ostentavam não eram forças com que lutassem contra políticos.
Trouxemos de terras estranhas um sistema complexo e acabado de preceitos, sem saber até que ponto se ajustam às condições da vida brasileira e sem cogitar das mudanças que tais condições lhe imporiam.
O liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. Só assimilamos esses princípios até onde coincidiram com a negação de autoridade confirmando nosso horror às hierarquias e permitindo tratar com familiaridade os governantes.
A democracia entre nós sempre foi um mal entendido. Aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la aos seus direitos e privilégios (os mesmos privilégios que tinham sido na Europa o alvo da luta da burguesia contra a aristocracia). Assim puderam incorporar à situação tradicional alguns lemas que pareciam os mais acertados para a época e exaltados nos livros e discursos.
Os movimentos aparentemente reformadores no Brasil (independência, conquistas liberais, idéia republicana) partiram quase sempre de cima para baixo, vieram quase sempre de surpresa, o povo recebeu-os com displicência ou hostilidade.Não emanavam de uma maturidade plena do povo que ficou indiferente a tudo.
Migração da família real portuguesa em 1808 acarretou: persistência dos os velhos padrões coloniais ameaçada; crescimento dos centros urbanos que abriu novos horizontes que iriam perturbar antigos deleites da vida rural. Muitos não souberam adaptar-se às mudanças. Começou a patentear-se a distância entre o elemento “consciente” e a massa brasileira. Transição do convívio no campo para as cidades provavelmente estimulou crise em nossos homens.
O amor às letras não reagiu contra a nossa realidade cotidiana, não tratou de corrigi-la; esqueceu-a, detestou-a. Mostrou indiferença ao conjunto social. Nossos homens de idéias em homens de palavras e livros; não saiam de si mesmos, de seus sonhos e imaginações. Era o modo de não nos rebaixarmos, de não sacrificarmos nossa personalidade no contato de coisas mesquinhas e desprezíveis. Acabaríamos assim por esquecer o que realmente interessava para nos dedicarmos a motivos que davam status: à palavra escrita, à retórica, etc.
Com o declínio do mundo rural e de seus representantes, essas novas elites estariam indicadas para o lugar vago. Nenhuma classe achava-se tão aparelhada para o mister de preservar o teor aristocrático de nossa sociedade tradicional como a das pessoas de imaginação cultivada e de leituras.
Existiam alguns traços por onde nossa intelectualidade revelava sua missão conservadora e senhorial. Entre eles a tendência para se distinguir no saber um instrumento capaz de elevar seu portador acima do comum dos mortais (a classe estudada, privilegiada apenas se gabava de seu conhecimento, mas não o usava para a transformação da realidade que a cercava!).
Quanta inútil retórica se tem esperdiçado para provar que todos os nossos males ficariam resolvidos se estivessem amplamente difundidas as escolas primárias e o conhecimento do ABC. A simples alfabetização em massa não constitui talvez um benefício sem par. Desacompanhada de outros elementos fundamentais da educação, que a completem, não tem nenhum valor.
Invencível desencanto em face das nossas condições reais. Quando se fez a propaganda republicana, julgou-se introduzir, com o novo regime, um sistema mais acorde com as supostas aspirações da nacionalidade. Na realidade, porém, foi ainda um incitamento negador o que animou os propagandistas: o Brasil devia entrar em novo rumo, porque se “envergonhava” de si mesmo, de sua realidade biológica.
Nossa República foi além do Império. Neste, o principio do Poder Moderador corrompeu-se bem cedo, graças à inexperiência do povo, servindo de base para nossa monarquia tutelar, compreensível onde dominava um sistema agrário patriarcal. A divisão política em dois partidos, menos representativos de idéias do que de pessoas e famílias, satisfazia nossa necessidade fundamental de solidariedade e luta. O Parlamento tinha uma função a cumprir dentro do quadro da vida nacional, dando a imagem visível dessa solidariedade e luta.

Capítulo 7 – Nossa revolução
Abolição, Proclamação da República e outros acontecimentos estabelecem uma revolução lenta, sem grande alarde.
Processo demorado. Novo sistema com centro de gravidade não mais nos domínios rurais e sim nos centros urbanos; cai também entre nós a influência dos portugueses.
Definhamento das condições que estimularam a formação de uma aristocracia rural poderosa.
Diminuição da importância da lavoura do açúcar e sua substituição pela do café.
Evolução para o predomínio urbano – aberto caminho para transformação de grandes proporções.
Urbanização contínua destruiu esteio rural.
Estado não precisa ser despótico. Povo brasileiro pacífico. Aparelhamento político se empenha em desarmar as expressões menos harmoniosas e em negar toda espontaneidade nacional. Política constitui-se em classe artificial estranha a todos os interesses. O brilho das fórmulas não passam de pretexto para as lutas de conquista e conservação de posições.
“Liberdade, igualdade e fraternidade” (ideais da Revolução Francesa) sofreram a interpretação que pareceu ajustar-se melhor aos nossos velhos padrões patriarcais e coloniais. As mudanças que inspiraram foram antes de aparato do que de substância.
Necessidade de se vencer a antítese liberalismo-caudilhismo para que haja superação da doutrina democrática. Esta vitória só se consumará se entre nós se liquidarem os fundamentos personalistas e aristocráticos.
Necessitamos, não de revolução horizontal, remoinho de contendas políticas, mas de revolução vertical que trouxesse à tona elementos mais vigorosos, que promovesse a amalgamação, não o expurgo das camadas superiores que ainda contam com bons homens.
Contra esse movimento é provável que se erga resistência dos adeptos do passado que se traduza em formas de expressão social capazes de comprometer as transformações.
O aparente triunfo de um princípio jamais significou no Brasil mais do que o triunfo de um personalismo sobre outro.
Entre nós, onde quer que o personalismo ou a oligarquia conseguiu abolir as resistências liberais, assegurou-se uma estabilidade política aparente. A existência de tais situações chega a fazer esquecer que os regimes discricionários, em mãos de dirigentes “providenciais” e irresponsáveis, representam um disfarce grosseiro, não uma alternativa, para a anarquia.
A idéia de uma espécie de entidade imaterial e impessoal, pairando sobre os indivíduos e presidindo os seus destinos, é dificilmente inteligível para os povos da América Latina (homem cordial impede o entendimento dessa idéia).
É freqüente imaginarmos prezar os princípios democráticos e liberais quando, em realidade, lutamos por um personalismo ou contra outro.
Apesar de tudo, não é justo afirmar nossa incompatibilidade com os ideais democráticos.
O nosso “homem cordial” encontraria uma possibilidade de articulação entre seus sentimentos e as construções dogmáticas da democracia liberal nas idéias da Revolução Francesa que encontram apoio em nossa noção da bondade natural.
Todavia, com a simples cordialidade não se criam os bons princípios. É necessário algum elemento normativo sólido para que possa haver cristalização social.
Existem outros remédios, além da tirania, para a consolidação e estabilização de um conjunto social e nacional.
Não faltam exemplos de ditadores que realizam atos de autoridade perfeitamente arbitrários e julgam, sem embargo, fazer obra democrática. Não é impossível que o fascismo de tipo italiano, a despeito de sua apologia da violência, chegue a alcançar sucesso entre nós (Getúlio Vargas) … O sistema que instituiu para sustentar a estrutura imposta com violência pretende compor-se dos elementos vitais de doutrinas que repele em muitos dos seus aspectos (contradição).
No caso do fascismo, a variedade brasileira ainda trouxe a agravante de se poder passar por uma teoria meramente conservadora, empenhada no fortalecimento das instituições sociais, morais e religiosas de prestígio indiscutível, e tendendo, assim, a tornar-se praticamente inofensiva aos poderosos, quando não apenas o seu instrumento. Tudo faz esperar que o “integralismo” será, cada vez mais, uma doutrina acomodatícia, avessa aos gestos de oposição e partidária sistemática da Ordem, quer dizer, do Poder Constituído (fascista). Segue neste ponto, a grande tradição brasileira, que nunca deixou funcionar os verdadeiros partidos de oposição, representativos de interesses ou de ideologias.
O liberalismo ainda é a única elaboração pela qual nos encontraremos com a nossa realidade. As formas superiores da sociedade (o Estado, a economia – formas “espirituais”) devem ser como um contorno congênito a ela e dela inseparável: emergem continuamente das suas necessidades específicas e jamais das escolhas caprichosas.
Devemos nos livrar do demônio pretensioso que se ocupa em obscurecer aos nossos olhos estas verdades singelas, pois inspirados por ele, os homens criam novas preferências e repugnâncias que raramente são boas.

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